quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Entrevista: Benke/Boogarins (GO)

01.   Quando e como começou a banda, quais eram os integrantes, quantas tours já fizeram no exterior e o que diabos significa Boogarins – significado literal e conotativo, se é que há.

Eu e Dinho nos conhecemos em 2008 na antiga escola técnica. Começamos a fazer musicas naquela época (“Despreocupar” e “Lucifernandis” vem desse tempo. Esse vídeo é de quando terminamos o ensino médio, um dos grandes concertos de despedida, risos: (https://www.youtube.com/watch?v=zo7twJmbvRQ). Em 2011 íamos pra faculdade e decidimos nos encontrar todo domingo pra terminar as musicas que começamos e grava-las - eu estava começando a gravar naquela época (https://benkes.bandcamp.com/). Então as músicas foram gravadas durante 2012 e fizemos o primeiro ensaio como trio, duas guitarras e bateria, nessa mesma época, já com o Hans tocando com a gente  - ele tinha tocado comigo e com o Dinho numa outra banda chamada Black Queen. 5 de janeiro de 2013 fizemos o primeiro ensaio com Raphael no baixo.

Não tenho exatamente a conta e o que significa o número de tours que fizemos. Em dois anos (2014 e 2016) fizemos tours de 4 meses seguidas onde eu provavelmente contaria mais de uma tour. No total são uns 300 shows nesses quase 4 anos, mais da metade fora do Brasil, conhecendo outros 20 países que nunca teríamos pisado não fosse essa zoeira.

Boogarins foi um nome que chegamos já em 2013 mesmo, com os quatro se encontrando pra ensaiar aos domingos antes dedicados à gravação. Pesquisei por nomes de plantas com significado legal e essa flor em específico, Bogarim, dizia exalar o amor puro, o que pra mim batia muito com o sentimento das canções que fazíamos. Ia ser "Os Bogarins". Colocamos dois O's pra não ter "boga" no nome (ideia do Hans) e uma vez que virou Boogarins, tiramos o "Os" pra que não ficasse parecendo banda wannabe 60's.

02.   Desde os tempos mais primórdios – ou desde que o MQN decidiu enveredar para o que eu adoro chamar de “pseudo stoner” ou “stoner tipicamente goianiense” – existe uma particularidade entre as bandas ascendentes por aqui: um rock morno, pouco original e extremamente digesto. Concorda com isso? Consegue me dizer onde (se é que existe esse “onde”) e como o Boogarins entra/entrou num cenário dominado por esse suposto estigma?

Sei lá se concordo totalmente. Quando eu tinha 13 anos só ouvia Nirvana e a única banda local que eu conhecia era de uns caras que ensaiavam musicas do próprio Nirvana ao lado da escola onde eu estudava, no Balneário. Eu ouvia pelo meu pai que tinham bandas de Goiânia e que elas cantavam em inglês, mas não tinha vontade de escutar nenhuma, tudo que eu procurava na internet era muito tosco. Em 2006 fui num Bananada com meu pai, lá no Martim Cererê, vi um monte de show e no final da noite, quando os atrasos eram bem mais comuns, lá pelas 4:30 da manhã, vi o MQN tocar e fiquei chocado. Nunca tinha nem visto uma Gibson de perto, quanto mais um show tão intenso (antes disso o mais rock'n roll que tinha visto foi o Capital Inicial no Go Music, risos). Portanto, acho que consigo encontrar mérito no que o MQN fazia. Claro que tudo sempre será questionável, mas hoje, conhecendo mais e melhor sobre música (goiana e mundial) vejo o MQN como uma das poucas bandas que realmente conseguiu flertar com um mercado e padrão gringo, que é onde o Boogarins hoje se encaixa.

O Boogarins entra num cenário dominado por isso, com a estrela do Dinho brilhando forte, risos. Desde aquele primeiro Bananada eu não ía em eventos de novo, tocava no quarto mesmo com as revistas de guitarra e bases sem guitarra de clássicos. Quando conheci Dinho no ensino médio achei as canções que ele fazia muito boas, apesar das gravações da banda dele serem meio toscas pra ser uma banda "a se levar a sério" (aquele lance das demos ao vivo). Mas conforme comecei a ir aos shows (maioria no Cine Ouro) via o pessoal pirando cada vez mais, dançando, cantando junto. Sem gravar um EP decente, o Ultravespa começou a tocar em horários mais legais nos festivais da Fósforo simplesmente porque ficaram bons de show, por tocarem quase todo fim de semana e eram carismáticos pra caralho. Não tinha nenhuma banda fazendo algo com um apelo pop massa, sendo visceral e ainda cantando em português. Pelo menos não nos festivais dos selos locais que eu acompanhava.  Acho que isso que o Dinho desenvolveu nesses 8 anos de "banda ao vivo" encaixou muito bem com o que eu tava "desenvolvendo/aprendendo", que era como gravar de um jeito próprio, mesmo que tosco, mas fazendo a gravação funcionar bem pra canção - e que de novo não via ninguém tendo as caras de fazer. Em Goiânia era um tal de "gravar demo ao vivo ou gravação profissional". Se soava tosco era chamado de demo. O resultado de uma demo ao vivo no Old Studio não era legal e não renderia nada de muito relevante e não tínhamos dinheiro (nem um real motivo também) pra gravar no então hypado Rocklab. 

O Boogarins então aparece com gravações interessantes e totalmente diferentes do que era feito aqui (sendo lançadas antes da banda começar a tocar as musicas ao vivo - algo também bem raro entre as bandas de Goiânia naquela época), e com um show legal, já que todos nós tocávamos bem e "regularmente" subíamos ao palco há pelo menos 5 anos, Raphael com a Riverbreeze, Dinho com Ultravespa e Hans com Johnny Suxxx.


03.   Qual a relação da banda com Fabrício Nobre? Considera o trabalho dele relevante (não só pra vocês enquanto banda, mas num geral) ou talvez seja só uma pessoa “necessária” enquanto produtor “bem-sucedido” (entre várias aspas mesmo) e influente no “mercado” dos grandes festivais?

Profissionalmente, o Fabricio cuida da nossa agenda no Brasil, mas no início da nossa aparição ele trabalhou mais duro do que isso - organizando a resposta da assessoria aqui, já que os discos lançados na gringa tinham assessoria lá mas aqui nunca tivemos de fato.
Enquanto produtor, na minha opinião, não há como nem porque questionar a relevância do que ele fez e faz. Claro que sem colocar em cheque as más experiências que cada um teve com ele, não tenho como conhecer todas as fofocas, mas o pessoal é bem mordido com algo que rola bem, né? Os line-ups dos últimos bananadas dialogam com festivais de médio porte do mundo inteiro e os Noise foram legendários nos últimos anos com ele na Monstro. Não há nenhum outro produtor que faça as coisas no mesmo nível aqui, portanto é uma pessoa altamente necessária - não que seja a mais necessária. 

Imagino que como todo moleque de 20 anos que queria ter uma banda fodida, que faria sucesso, mas se viu crescendo num outro ramo da produção musical, ele sempre entregou algo foda (de verdade) pro público. Agora como ele usou isso e artistas locais pra contar a própria história grandiosa (e deixar geral puto) eu não sei. Sei do bem que o Boogarins faz pra ele hoje em dia, tanto no Brasil quanto pra se mostrar uma figura relevante internacionalmente e que ele usa disso, mas sei lá. Tenho muito a agradecer, mas nenhuma dívida, portanto, sou da seguinte lógica: se algo está me incomodando ou acho o cara mal caráter, simplesmente paro de me relacionar profissionalmente com a figura. Agora, a maioria das bandas daqui falam mal, mas falam mal porque não eram chamadas pra tocar nos roles dele, risos. Aí isso pra mim é piada.

04.   Apesar da influência clara dessa tal neo psicodelia eu enxergo uma autenticidade na estrutura do som de vocês, sobretudo nas transições entre as partes “cancionadas” e nas repetições. Soe talvez como se o Tame Impala era Innerspeaker regravasse o 1972 do Neu!. O que vocês ouvem? Como é o processo de composição e o que você pontua como principal mudança depois que Ynaiã entrou?

Hoje em dia o mais escutado da banda é o MC Gorilla, gênio do "instant porn funk", risos. Nos últimos anos o hip hop moderno e música eletrônica experimental tomaram conta da gente, mas não acho que isso chegou a ser notado nos discos já lançados (talvez ao vivo se note isso, mas de modo que flerta bastante com o Krautrock mesmo). Ouvimos muita coisa, mas as maiores referências para o início da banda (e que se mantém respeitadas até hoje) são o Júpiter Maçã (esqueça lugar do caralho), Pink Floyd Barretiano e, também, principalmente, o primeiro disco solo de Barret. Isso muito mais que a nova psicodelia. Tame Impala para gente era muito mais um jeito foda de se gravar bateria do que um jeito foda de escrever musica (“Erre” é a única canção onde eu fiz algo realmente inspirado).

Nosso processo de composição é muito individualista de início e depois totalmente grupal. Sempre um de nós vai chegar com uma ideia bem elaborada, raramente alguém chega "em dúvida" ou querendo que o outro complete algo na composição. Uma vez que vemos a musica, os arranjos são feitos de maneira toda independente. Ninguém da pitaco na linha que o outro faz, até estarmos repetindo aquele padrão em loop, aí sim o compositor da música em questão (ou qualquer um de nós na verdade) começa a lapidar o arranjo pra soar mais interessante. Isso é o jeito de fazer as coisas já com o Ynaiã dentro da banda. Ele entrou logo depois da nossa primeira tour gringa, quando tínhamos feito 101 shows e gravado o Manual em 5 meses. Não eramos exímios músicos, mas tocávamos juntos como ninguém. Estávamos prontos pra dar uma pirada a mais. Eu particularmente escutava muito Mars Volta na juventude - https://www.youtube.com/watch?v=N3nM-v3OFGs -  mas nem contava. Daí acho que a coisa do ao vivo foi mais pra esse lado (talvez os meninos não concordem). Minhas guitarras já eram bem delayzadas, vocal de registro agudo e aí chega o "melhor baterista do Brasil" pra tocar junto.

Junto disso começamos a ficar mais próximos de grandes figuras da música experimental, como Abdala, daqui, e o Berna, de São Paulo. Lembro que uma vez trouxemos Berna pra fazer PA num show do Grito Rock 2015 e busquei ele no aeroporto. Ele disse que iria tocar com um cara daqui de Goiânia, no Evoé, perguntou se eu podia explicar como fazia pra ele chegar de ônibus. Resolvi levá-lo, também pra assistir com que cara de pau esse povo ia fazer um som sem nunca ter se encontrado antes. No fim o Berna mandou um tipo de guitarra que eu nunca tinha visto, com as fitas crepe nas cordas e etc. Abriu a cabeça demais ver aquilo. Hoje já fiz inúmeras sessões com os dois e o Boogarins também passou a se prender menos nas regras harmônicas/melódicas enquanto improvisa(va).

05.   Recentemente vocês tocaram numa edição do Ocupem as Ruas. Qual relevância desse tipo de evento você pontuaria, pensando Goiânia como uma cidade de entretenimento “pop” relativamente caro e dominado substancialmente por boates e pequenas empresas?

Esse tal entretenimento pop de Goiânia não existe pras bandas, né? Não como um meio rentável e autossuficiente. Funciona bem pras "baladas alternativas". Iniciativas e espaços como o Complexo e o Evoé dão um sopro de vida pros artistas autorais que não cabem em botecos. Quanto ao Ocupem, se colocar à disposição de um público muito mais amplo é a coisa mais importante do mundo - pelo menos se você realmente faz isso pra ser escutado pelas pessoas. A questão não é simplesmente por ser de graça, mas o fato das portas serem abertas para menores de idade. Fizemos algo parecido ao tocar na escola onde estudei, no Balneário, dessa vez fazendo algo mais divertido ainda, que foi trazer nosso público pra Zona Norte. Enfim, a galera do "rockinho" acha que brasileiro gosta de Safadão e Funk porque é burro, mas não tem nada a ver com isso. É só procurar o que realmente está à disposição do povo e o que a imprensa tradicional replica. Música é um lance absurdo, a audição é o único sentido do corpo humano que você não desliga/fecha/tampa perfeitamente. Você não consegue não ouvir ou não ser afetado (gostando ou não do que se ouve) pelo que está ao seu redor. Portanto se você não tem cacife pra tocar na rádio, passar na TV, só se colocando à disposição desse publico que busca por música ao vivo pra realmente fazer alguma diferença.

06.   Depois de disco lançado por selos interessantes e uma superação estética e musical visível entre os discos (e shows, porque não), quais as pretensões de agora em diante? 


Obrigado pelo “superação estética e musical”, risos. Bicho, muita coisa passa pela cabeça, queremos primeiramente continuar fazendo as coisas do mesmo jeito - sendo amigos uns dos outros. Conseguimos passar meses e mais meses juntos, sem ver namoradas, família e outros amigos. Isso pra mim já é uma conquista e tanto, sinto que poderíamos continuar fazendo as coisas nesse nível/patamar por mais 10 anos. Mas não acho que seja esse o caso, realmente confiamos no apelo pop que nossa música tem e queremos ser mais do que somos aqui e fora também. Temos dois discos na agulha pra lançar, esperando e estudando o melhor momento e meio de fazer isso.