quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Entrevista: Benke/Boogarins (GO)

01.   Quando e como começou a banda, quais eram os integrantes, quantas tours já fizeram no exterior e o que diabos significa Boogarins – significado literal e conotativo, se é que há.

Eu e Dinho nos conhecemos em 2008 na antiga escola técnica. Começamos a fazer musicas naquela época (“Despreocupar” e “Lucifernandis” vem desse tempo. Esse vídeo é de quando terminamos o ensino médio, um dos grandes concertos de despedida, risos: (https://www.youtube.com/watch?v=zo7twJmbvRQ). Em 2011 íamos pra faculdade e decidimos nos encontrar todo domingo pra terminar as musicas que começamos e grava-las - eu estava começando a gravar naquela época (https://benkes.bandcamp.com/). Então as músicas foram gravadas durante 2012 e fizemos o primeiro ensaio como trio, duas guitarras e bateria, nessa mesma época, já com o Hans tocando com a gente  - ele tinha tocado comigo e com o Dinho numa outra banda chamada Black Queen. 5 de janeiro de 2013 fizemos o primeiro ensaio com Raphael no baixo.

Não tenho exatamente a conta e o que significa o número de tours que fizemos. Em dois anos (2014 e 2016) fizemos tours de 4 meses seguidas onde eu provavelmente contaria mais de uma tour. No total são uns 300 shows nesses quase 4 anos, mais da metade fora do Brasil, conhecendo outros 20 países que nunca teríamos pisado não fosse essa zoeira.

Boogarins foi um nome que chegamos já em 2013 mesmo, com os quatro se encontrando pra ensaiar aos domingos antes dedicados à gravação. Pesquisei por nomes de plantas com significado legal e essa flor em específico, Bogarim, dizia exalar o amor puro, o que pra mim batia muito com o sentimento das canções que fazíamos. Ia ser "Os Bogarins". Colocamos dois O's pra não ter "boga" no nome (ideia do Hans) e uma vez que virou Boogarins, tiramos o "Os" pra que não ficasse parecendo banda wannabe 60's.

02.   Desde os tempos mais primórdios – ou desde que o MQN decidiu enveredar para o que eu adoro chamar de “pseudo stoner” ou “stoner tipicamente goianiense” – existe uma particularidade entre as bandas ascendentes por aqui: um rock morno, pouco original e extremamente digesto. Concorda com isso? Consegue me dizer onde (se é que existe esse “onde”) e como o Boogarins entra/entrou num cenário dominado por esse suposto estigma?

Sei lá se concordo totalmente. Quando eu tinha 13 anos só ouvia Nirvana e a única banda local que eu conhecia era de uns caras que ensaiavam musicas do próprio Nirvana ao lado da escola onde eu estudava, no Balneário. Eu ouvia pelo meu pai que tinham bandas de Goiânia e que elas cantavam em inglês, mas não tinha vontade de escutar nenhuma, tudo que eu procurava na internet era muito tosco. Em 2006 fui num Bananada com meu pai, lá no Martim Cererê, vi um monte de show e no final da noite, quando os atrasos eram bem mais comuns, lá pelas 4:30 da manhã, vi o MQN tocar e fiquei chocado. Nunca tinha nem visto uma Gibson de perto, quanto mais um show tão intenso (antes disso o mais rock'n roll que tinha visto foi o Capital Inicial no Go Music, risos). Portanto, acho que consigo encontrar mérito no que o MQN fazia. Claro que tudo sempre será questionável, mas hoje, conhecendo mais e melhor sobre música (goiana e mundial) vejo o MQN como uma das poucas bandas que realmente conseguiu flertar com um mercado e padrão gringo, que é onde o Boogarins hoje se encaixa.

O Boogarins entra num cenário dominado por isso, com a estrela do Dinho brilhando forte, risos. Desde aquele primeiro Bananada eu não ía em eventos de novo, tocava no quarto mesmo com as revistas de guitarra e bases sem guitarra de clássicos. Quando conheci Dinho no ensino médio achei as canções que ele fazia muito boas, apesar das gravações da banda dele serem meio toscas pra ser uma banda "a se levar a sério" (aquele lance das demos ao vivo). Mas conforme comecei a ir aos shows (maioria no Cine Ouro) via o pessoal pirando cada vez mais, dançando, cantando junto. Sem gravar um EP decente, o Ultravespa começou a tocar em horários mais legais nos festivais da Fósforo simplesmente porque ficaram bons de show, por tocarem quase todo fim de semana e eram carismáticos pra caralho. Não tinha nenhuma banda fazendo algo com um apelo pop massa, sendo visceral e ainda cantando em português. Pelo menos não nos festivais dos selos locais que eu acompanhava.  Acho que isso que o Dinho desenvolveu nesses 8 anos de "banda ao vivo" encaixou muito bem com o que eu tava "desenvolvendo/aprendendo", que era como gravar de um jeito próprio, mesmo que tosco, mas fazendo a gravação funcionar bem pra canção - e que de novo não via ninguém tendo as caras de fazer. Em Goiânia era um tal de "gravar demo ao vivo ou gravação profissional". Se soava tosco era chamado de demo. O resultado de uma demo ao vivo no Old Studio não era legal e não renderia nada de muito relevante e não tínhamos dinheiro (nem um real motivo também) pra gravar no então hypado Rocklab. 

O Boogarins então aparece com gravações interessantes e totalmente diferentes do que era feito aqui (sendo lançadas antes da banda começar a tocar as musicas ao vivo - algo também bem raro entre as bandas de Goiânia naquela época), e com um show legal, já que todos nós tocávamos bem e "regularmente" subíamos ao palco há pelo menos 5 anos, Raphael com a Riverbreeze, Dinho com Ultravespa e Hans com Johnny Suxxx.


03.   Qual a relação da banda com Fabrício Nobre? Considera o trabalho dele relevante (não só pra vocês enquanto banda, mas num geral) ou talvez seja só uma pessoa “necessária” enquanto produtor “bem-sucedido” (entre várias aspas mesmo) e influente no “mercado” dos grandes festivais?

Profissionalmente, o Fabricio cuida da nossa agenda no Brasil, mas no início da nossa aparição ele trabalhou mais duro do que isso - organizando a resposta da assessoria aqui, já que os discos lançados na gringa tinham assessoria lá mas aqui nunca tivemos de fato.
Enquanto produtor, na minha opinião, não há como nem porque questionar a relevância do que ele fez e faz. Claro que sem colocar em cheque as más experiências que cada um teve com ele, não tenho como conhecer todas as fofocas, mas o pessoal é bem mordido com algo que rola bem, né? Os line-ups dos últimos bananadas dialogam com festivais de médio porte do mundo inteiro e os Noise foram legendários nos últimos anos com ele na Monstro. Não há nenhum outro produtor que faça as coisas no mesmo nível aqui, portanto é uma pessoa altamente necessária - não que seja a mais necessária. 

Imagino que como todo moleque de 20 anos que queria ter uma banda fodida, que faria sucesso, mas se viu crescendo num outro ramo da produção musical, ele sempre entregou algo foda (de verdade) pro público. Agora como ele usou isso e artistas locais pra contar a própria história grandiosa (e deixar geral puto) eu não sei. Sei do bem que o Boogarins faz pra ele hoje em dia, tanto no Brasil quanto pra se mostrar uma figura relevante internacionalmente e que ele usa disso, mas sei lá. Tenho muito a agradecer, mas nenhuma dívida, portanto, sou da seguinte lógica: se algo está me incomodando ou acho o cara mal caráter, simplesmente paro de me relacionar profissionalmente com a figura. Agora, a maioria das bandas daqui falam mal, mas falam mal porque não eram chamadas pra tocar nos roles dele, risos. Aí isso pra mim é piada.

04.   Apesar da influência clara dessa tal neo psicodelia eu enxergo uma autenticidade na estrutura do som de vocês, sobretudo nas transições entre as partes “cancionadas” e nas repetições. Soe talvez como se o Tame Impala era Innerspeaker regravasse o 1972 do Neu!. O que vocês ouvem? Como é o processo de composição e o que você pontua como principal mudança depois que Ynaiã entrou?

Hoje em dia o mais escutado da banda é o MC Gorilla, gênio do "instant porn funk", risos. Nos últimos anos o hip hop moderno e música eletrônica experimental tomaram conta da gente, mas não acho que isso chegou a ser notado nos discos já lançados (talvez ao vivo se note isso, mas de modo que flerta bastante com o Krautrock mesmo). Ouvimos muita coisa, mas as maiores referências para o início da banda (e que se mantém respeitadas até hoje) são o Júpiter Maçã (esqueça lugar do caralho), Pink Floyd Barretiano e, também, principalmente, o primeiro disco solo de Barret. Isso muito mais que a nova psicodelia. Tame Impala para gente era muito mais um jeito foda de se gravar bateria do que um jeito foda de escrever musica (“Erre” é a única canção onde eu fiz algo realmente inspirado).

Nosso processo de composição é muito individualista de início e depois totalmente grupal. Sempre um de nós vai chegar com uma ideia bem elaborada, raramente alguém chega "em dúvida" ou querendo que o outro complete algo na composição. Uma vez que vemos a musica, os arranjos são feitos de maneira toda independente. Ninguém da pitaco na linha que o outro faz, até estarmos repetindo aquele padrão em loop, aí sim o compositor da música em questão (ou qualquer um de nós na verdade) começa a lapidar o arranjo pra soar mais interessante. Isso é o jeito de fazer as coisas já com o Ynaiã dentro da banda. Ele entrou logo depois da nossa primeira tour gringa, quando tínhamos feito 101 shows e gravado o Manual em 5 meses. Não eramos exímios músicos, mas tocávamos juntos como ninguém. Estávamos prontos pra dar uma pirada a mais. Eu particularmente escutava muito Mars Volta na juventude - https://www.youtube.com/watch?v=N3nM-v3OFGs -  mas nem contava. Daí acho que a coisa do ao vivo foi mais pra esse lado (talvez os meninos não concordem). Minhas guitarras já eram bem delayzadas, vocal de registro agudo e aí chega o "melhor baterista do Brasil" pra tocar junto.

Junto disso começamos a ficar mais próximos de grandes figuras da música experimental, como Abdala, daqui, e o Berna, de São Paulo. Lembro que uma vez trouxemos Berna pra fazer PA num show do Grito Rock 2015 e busquei ele no aeroporto. Ele disse que iria tocar com um cara daqui de Goiânia, no Evoé, perguntou se eu podia explicar como fazia pra ele chegar de ônibus. Resolvi levá-lo, também pra assistir com que cara de pau esse povo ia fazer um som sem nunca ter se encontrado antes. No fim o Berna mandou um tipo de guitarra que eu nunca tinha visto, com as fitas crepe nas cordas e etc. Abriu a cabeça demais ver aquilo. Hoje já fiz inúmeras sessões com os dois e o Boogarins também passou a se prender menos nas regras harmônicas/melódicas enquanto improvisa(va).

05.   Recentemente vocês tocaram numa edição do Ocupem as Ruas. Qual relevância desse tipo de evento você pontuaria, pensando Goiânia como uma cidade de entretenimento “pop” relativamente caro e dominado substancialmente por boates e pequenas empresas?

Esse tal entretenimento pop de Goiânia não existe pras bandas, né? Não como um meio rentável e autossuficiente. Funciona bem pras "baladas alternativas". Iniciativas e espaços como o Complexo e o Evoé dão um sopro de vida pros artistas autorais que não cabem em botecos. Quanto ao Ocupem, se colocar à disposição de um público muito mais amplo é a coisa mais importante do mundo - pelo menos se você realmente faz isso pra ser escutado pelas pessoas. A questão não é simplesmente por ser de graça, mas o fato das portas serem abertas para menores de idade. Fizemos algo parecido ao tocar na escola onde estudei, no Balneário, dessa vez fazendo algo mais divertido ainda, que foi trazer nosso público pra Zona Norte. Enfim, a galera do "rockinho" acha que brasileiro gosta de Safadão e Funk porque é burro, mas não tem nada a ver com isso. É só procurar o que realmente está à disposição do povo e o que a imprensa tradicional replica. Música é um lance absurdo, a audição é o único sentido do corpo humano que você não desliga/fecha/tampa perfeitamente. Você não consegue não ouvir ou não ser afetado (gostando ou não do que se ouve) pelo que está ao seu redor. Portanto se você não tem cacife pra tocar na rádio, passar na TV, só se colocando à disposição desse publico que busca por música ao vivo pra realmente fazer alguma diferença.

06.   Depois de disco lançado por selos interessantes e uma superação estética e musical visível entre os discos (e shows, porque não), quais as pretensões de agora em diante? 


Obrigado pelo “superação estética e musical”, risos. Bicho, muita coisa passa pela cabeça, queremos primeiramente continuar fazendo as coisas do mesmo jeito - sendo amigos uns dos outros. Conseguimos passar meses e mais meses juntos, sem ver namoradas, família e outros amigos. Isso pra mim já é uma conquista e tanto, sinto que poderíamos continuar fazendo as coisas nesse nível/patamar por mais 10 anos. Mas não acho que seja esse o caso, realmente confiamos no apelo pop que nossa música tem e queremos ser mais do que somos aqui e fora também. Temos dois discos na agulha pra lançar, esperando e estudando o melhor momento e meio de fazer isso.


quarta-feira, 19 de julho de 2017

Terror Fest - 18 years of persistence and noise! - 17/06/2017 (Brasília-DF)

Exatamente uma semana depois de ir a Brasília em função do inesquecível Beneath The Underground, me desloquei novamente à capital para participar do Terror Fest, tradicional festa de aniversário do Terror Revolucionário, todavia com motivação especial, além da óbvia: despedida das anfitriãs para sua primeira turnê na Europa. 


As bandas escaladas pra festa foram Malicious Intent, Ilizarov - ambas vi na semana anterior, mas a ansiedade pra vê-las novamente era grande -, Dead Meat, de Goiânia, e Ímpeto, banda que integro desde meados de 2005. Uma honra fazer parte dessa festa, aliás, uma honra me dar conta que o Ímpeto, mesmo sem ensaiar, levando as coisas na máxima despretensão possível, ainda me traz vivacidade e entusiasmo depois de tanto tempo. Chamam isso de amizade, né? Pois bem, combinado o horário de partida, me prontifiquei com mochila munida de blusa de frio, CAZER com pratos de bateria, e em casa fiquei, à espera de Guga, Bacural e André pra seguirmos viagem até o Saloon Red Rock, na Samambaia.

Com um considerável atraso chegam os energuminos e só ali na hora me dou conta que iriamos em dois carros: um lotado com Bacural, Guga e respectivas namoradas, e outro, com eu e André. Feita a logística da partida, o carro com Bacural e Guga dispara na frente e vamos eu e André, ouvindo Led Zeppelin, exercitando a nerdice pura e aplicada de som e contemplando o pôr-do-sol do cerrado, um degradê avermelhado maravilhoso que de cara deu vontade de parar no acostamento, colocar um Neil Young, erguer as pernas sob as janelas e imergir no horizonte infindável à frente. Clima fresco e agradável, céu gigante, colorido e libertador que tão logo desperta vontade de sumir pro meio do mato por vai saber quanto tempo. Um plano futuro, de repente. Quem sabe? Cientes que sair além do horário previsto não foi tão má ideia assim seguimos até o Jerivá, parada obrigatória e ponto de encontro com o resto da gangue.


Dois pastéis de queijo e um café depois seguimos viagem, eles na frente - Guga já estava atrasado pois tocaria com Dead Meat, terceira banda da noite - e nós láá atrás, numa calmaria sem fim e ainda contagiados pelo clima acolhedor do fim de tarde. Curtindo o Ride The Lightning e em seguida um Minor Threat inspirador chegamos ao local, guiados pelo GPS (quase) infalível. Um amontoado de rockeiros na porta facilitou a identificação, e de prontidão adentramos o cercadinho que envolve a calçada de acesso à rampa que desemboca no espaço pros shows. Logo de cara encontro alguns amigos que me recepcionam com um calor que tapeava o proto-frio da noite e eis que, motivado pelo entusiasmo do Capitão Barbosa, compro uma cartela pro bingo que sortearia brindes e de quebra ajudaria com os custos da viagem do Terror. Sob a melhor das hospitalidades, já desço a rampinha pra ver quem tava tocando. 

Por conta do atraso perdemos Malicious Intent e Ilizarov, o que me deixou chateado a princípio mas desencanado em seguida. Oportunidades pra vê-los não faltarão, tenho certeza. Aos que não conhecem, posso dizer que o Saloon lembra bastante aquele circuito subterrâneo do CONIC onde rolaram os históricos Caga Sangue Thrash: estreito no comprimento, espaçoso em largura, teto relativamente baixo mas com um palquinho suficiente pra contemplar o aparato de som do Ed, além de um balcão pro bar logo ali. Perfeito pra shows do nosso porte, tanto pra vazão do som quanto pra proximidade público-banda. Espero(amos) que persista!


Pois bem, o Dead Meat já tocava e posso dizer que foi o melhor show deles que já vi. As músicas novas tão um estouro, evolução notável tanto em composição quanto em execução. Acho louco porque o clima cavernoso da clara referência Sepultura/Schizofrenia perdura, mas o virtuosismo das passagens e força, impacto dos sons, flertando com o Death Metal, já denotam um passo além, mais pro Demolition Hammer era Epidemic of Violence e Sepultura/Beneath The Remains. Vocal do Gustavo cada vez melhor, mais em cima, Guga mais seguro e Urbano, embora estivesse com o braço bichado, tocou certinho. Hector Homem-Palco, ex membro e um dos fundadores do Terror Revolucionário, vendo o show ao meu lado e de Bacural, não se cansa de aplaudir entre os intervalos, sempre com um notável sorriso no rosto largo e dizendo "esses caras tão com raiva, ein?!". Discursos afiados de Gustavo vão dando o tom dos intervalos, bangers se divertindo nas imediações e o show acaba, dando lugar ao bingo e à revelação da rifa, todas formas de levantar um troco pra ajudar os donos da festa pra tour de logo mais.


Se tem uma coisa que aprendi a adorar nessas dezenas de idas a Brasília em função do rock é o jeito despojado que certas figuras tratam coisa séria. Nessas de fazer dinheiro pra custear uma ida na raça à Europa, os membros do Terror Revolucionário se viraram de tudo quanto é jeito, sempre incentivados por parceiros que disponibilizaram tempo e brindes de toda a sorte. Com a cartela de bingo a dez reais os contemplados ganhariam uma cesta abarrotada de cervejas artesanais, garrafa de cachaça para o segundo colocado, e brindes - caneca, camisetas e cd's de bandas undergrounds, etc - para os próximos três ou quatro sorteados. Sob a narração efusiva e engraçadíssima de Capitão Barbosa, Marcelo Podrera e Hector Homem-Palco, as bolinhas do bingo vão sendo anunciadas, sempre com uma piadinha infame entre uma e outra, o que, imediatamente, me traz à memória a mesma era Caga Sangue Thrash, inesquecível época do subterrâneo brasiliense que conciliava, com toda maestria possível, os jargões políticos do underground com discotecagem tosca, bandas barulhentas e diversão a todo custo. Uma fase que formou caráter de muita gente, sobretudo graças à mente perturbada do Barbosa, incansável, e que nessa noite era só sorriso. 


Fato é que, no frigir dos ovos, Julião, outra figura icônica do DF, ganhou a cesta de cerveja mesmo que, pelo que disseram, não seja lá um apreciador da bebida. Bingo é bingo. Segundo lugar quem tirou foi meu conterrâneo Israel, outra figura carimbada do rock e de tudo mais, desde sempre. Grande figura. Merecidasso. Depois vi que Josefer, o irmão de Jeffer, fechou duas cartelas e ganhou premiações seguidas. Cagão! Eu fiquei só na vontade, e a essa altura, embriagado de bom humor e da ajuda de Felipe CDC - um guaraná Antartica 2 dois litros, um pacote de bolacha Bono (essa devidamente guardada pra viagem de volta), e uma garrafa de água -, me preparava pra montar as coisas, já que o Ímpeto seria a próxima banda. 


Com um tempo considerável pra ajeitar as coisas, montamos tudo e passamos o som de leve, coisa de meia música de um minuto, algo próximo do nosso suficiente, mesmo. O Ed, responsável pelo som, é um velho conhecido, tá sempre montando aparelhagem e manuseando a mesa nos shows por lá. Costuma acertar a mão pro que a gente quer. Tirando o fato do baixo ter dados umas consideráveis osciladas de volume nos PA's e do meu ride ter caído numa das últimas músicas - fui devidamente amparado por Marcelo Podrera, tudo em casa -, gostei do nosso show. As mesmas piadas cretinas alternando com discursos de impacto do Bacural, Guga pulando (!) e André na contenção, ou seja, fora isso ou aquilo que não resumem nada, correu tudo dentro das normalidades. Aliás, levando em conta que não ensaiamos (isso pro Ímpeto é rotineiro mesmo), foi ok, até porque as músicas são as mesmas de quase sempre, exceto por um cover do Psykoze que reinventamos num show três dias antes e re-aplicamos lá na hora. Modéstia à parte mas gente se entende. Pudera, né? Pra acabar essa amassação de barro pretensiosa só queria registrar que amo tocar com esses caras. Acho que o Ímpeto só existe até hoje porque não tem qualquer exigência ou cobrança. Nada contra o contrário, mas nosso ritmo é outro. Celebração de onda boa e amizade, pretensão zero. Funciona até hoje porque é assim. E nesse ritmo eu espero que não acabe nunca. Obrigado, amigos!


Passada a euforia e desmontada a nossa estruturinha básica, era vez de pegar um ar e esperar pelo show do Terror, aniversariante da noite. 

Sob um clima de festa e com o (ótimo) público feliz e à vontade, o Terror destila o veneno do crust tradicional em uns quase quarenta minutos de show. Várias músicas emendadas são intercaladas com discursos de imensa gratidão da parte de CDC e Barbosa, visivelmente emocionados. Entre um bangeamento e outro ali na frente do palquinho fiquei pensando: parece fácil mas não é. Por mais que as músicas tenham aquela estrutura básica típica de quem ouviu muito Doom e Extreme Noise Terror na vida, criar e recriar uma infinidade de sons sem soar minimamente pretensioso ou enjoativo em 18 anos de trajetória é coisa de quem sabe o que quer e gosta do que faz. Aliás, ponto aqui talvez nem seja esse, por mais importante que seja. Toda a mobilização das mais diversas pessoas em ajudar o Terror a custear a tour é só mais um sinal do quanto Jeffer, Felipe, Adriana e Barbosa são pessoas queridas, importantes, honestas e companheiras. A banda agrega todo tipo de público, pela banda em si, claro, mas parte disso também é sobre a satisfação em vê-los juntos, justamente porque eles sempre fizeram questão demais de ver os outros. Só aqui em Goiânia já vieram uma centena de vezes. Brasília e entorno, nem se fala. A tour na Europa é a cereja do bolo, conquista mais que importante e merecida, desenrolada na raça e persistência de quem abraça o subterrâneo com todas as forças desse mundo. Inspirador mesmo. Escrevi meu primeiro zine por causa do Felipe CDC. Reafirmei minha fixação por tocar bateria depois de ver a banda em ação pela primeira vez, no extinto terra do Nunca, lá em sei lá, 2004 ou 2005. Isso sem contar as pessoalidades, o abraço caloroso e a satisfação que os quatro exalam. Pessoas incríveis, banda incrível. Vida longa ao Terror Revolucionário!


Show terminado, sensação de alívio e prazer no rostos dos presentes. Dou uma volta pra despedir do pessoal e compro uma camiseta da banda. A noite cai e o frio vem junto. Entramos no carro, trilha sonora branda pra uma volta de mais conversa com André e quando me dou conta já estou em casa. Mais uma noite que acaba e mais uma etapa dessa reafirmação constante: agregar em função do som é a coisa mais legal da minha vida. 



Fotos: Rockeragem 


quinta-feira, 13 de julho de 2017

Entrevista: Marcelo/O Cúmplice (SP)

01. Além da popularização dos meios de comunicação e das facilidades de acesso à arte num geral, quais diferenças (o que era melhor e o que melhorou ou não) você repara entre a geração – estritamente underground, a respeito de ter um selo, uma banda, organizar shows, etc - do meio/fim dos anos 90 pra cá?

Acredito que as transformações tecnológicas mudaram completamente as formas de fazer e atuar dentro da experiência da música underground. A velocidade que a informação é adquirida, produzida e passada faz com que sejamos cada vez mais ansiosos, e ao mesmo tempo não valorizemos o que conseguimos. De outra forma, as pessoas que vivenciavam essas experiências anos atrás tinham uma outra maneira de agir e interpretar o que era ter “música” em mãos. Falo isso de minha experiência. Adquirir um lp ou cd, as vezes era um périplo, uma aventura. E a gente se agarrava a isso com unhas e dentes, como se fosse um tesouro a ser legado aos nossos filhos. E ainda penso assim, ter uma coleção de discos é como manter uma biblioteca. Lá estão suas referências. Lá estão histórias que embalaram sua vida. Ao alcance da mão, para ser manuseado e consumido. Hoje acho que as pessoas baixam, 2 ou 3 músicas, ouvem até enjoar sem mesmo lembrar o nome do artista ou capa do álbum e depois deletam do celular, ou hd, para ocupar com outras coisas. Sei que é um dilema geracional mesmo. Não aponto como bom ou ruim. Só é diferente da forma como aprendi a adquirir música.
Por outro lado, eu tento ser positivo em ver que muita coisa mudou para melhor. Para uma banda é extremamente mais fácil, na medida do possível de cada um, claro, ter acesso a bons equipamentos, ter técnicos de estúdio que entendam do som. Além disso, o acesso a suas referências mudou. O que antes identificávamos em fanzines xerocados mil vezes e em fotos de encarte de disco, pode ser rapidamente identificado por um vídeo do Youtube, ou escrevendo diretamente para a página da banda. Se antes a nossa base era a infinita rede de correspondências, com toneladas de flyers nos envelopes com carta social, hoje as redes sociais, comunidades virtuais, plataformas de streaming, os e-mail se e grupos de comunicação instantânea aceleraram e facilitaram o acesso para mapear possíveis locais para tocar e estabelecer contatos com pessoas com interesses comuns, que podem ajudar a produzir o que quer que seja, de forma cooperativa. Uma vez alguém me comentou que o Redson e o pessoal do Cólera ficou mais de um ano para armar aquela tour deles dos anos 80. Imagine, em um mundo onde a comunicação era telefone, quanto mais um fax ou telex. Hoje com alguns e-mails, para as pessoas que lidam com booking, em semanas, no máximo alguns meses, pode-se considerar que se tem na mão uma tour fechada e estruturada.
Hoje os selos dispõem de inúmeros formatos para disponibilizarem a música de seus catálogos. Existe a possibilidade de ser um selo que lida com material físico (vinil, cd, fita e outros) ou virtual (aquele que só existe na nuvem) ou todos ao mesmo tempo. Se lembrarmos como era no começo dos anos 90, pelo menos aqui em São Paulo, tínhamos selos que eram vinculados a lojas de discos. Quem produzia, também era o encarregado de escoar a produção por um ponto fixo. No correr dessa mesma década, com o surgimento da mídia gravável, do barateamento do cd e quebra das fábricas de vinil do Brasil, um outro fenômeno aconteceu, inúmeros selos independentes surgiram, ligados a bandas ou pessoas interessadas nessa maneira de fazer. Mesmo assim era custoso lidar com fotolitos, com master em mídia física, intermediação via correio/telefone com os produtores. Isso mudou tanto para os dias de hoje, ficou tão impessoal, que tenho a impressão que estou mandando o material para o limbo, onde ele é processado, e em 30 dias ele vira 3 ou quatro caixas grandes que me esperam na porta de casa.


02. Como (e se é que) você aplica suas vivências de historiador nos projetos que encabeça? E o contrário, acha que (e se sim, como) suas vivências com banda/selo/shows interferem nos seus posicionamentos como historiador?

Antes de fazer a graduação eu já vivia o universo do hardcore-punk/underground alternativo. É algo que ajudou a moldar meu caráter e visão de mundo. Foi o universo que me apresentou pautas que me fizeram refletir e mudar para o que sou hoje, fazendo uma curva sem volta no meu passado. Quando entrei na universidade, e eu já era um pouco mais velho que a média, muitas ideias de política tomaram mais corpo e peso. As leituras foram se aprimorando. O senso crítico fica um pouco mais afiado. Por outro lado, depois de formado bacharel/licenciado, de ter feito especialização, e atualmente no mestrado (mais uma vez), eu vejo que tudo que faço no âmbito de estudo ou de produção acadêmica passa pelo jeito de “fazer” do punk. Eu não costumo esperar muito ou ser tão tímido para tomar certas atitudes. Quando comecei a trabalhar com História Oral, por exemplo, eu mesmo preparava o equipamento de gravação. Revisava os perfis de entrevistados, sem que me indicassem que era isso a ser feito. Quando tenho dificuldade em arrumar algum texto ou alguma tradução de um idioma que eu não domine busco formas, maneiras, apelo a amigos. Algo que percebo que fez a via inversa. Digo, da história para o punk, foi pensar com mais profundidade certos conceitos na realidade vivida. Algumas palavras são muito pesadas quando olho a realidade hoje: tempo, memória, sociedade, cultura, e tantas outras que são a base das ciências sociais. Não consigo mais pensar esses conceitos de forma superficial. Eu tenho uma fome de aprender, que me deixa um pouco culpado, por não ter tempo de ler algumas coisas, como tive no passado. Essas experiências se misturam, o ser humano é um bicho complexo por demais, e eu pessoalmente acho que todas essas coisas se misturam comigo. Não tem um limite que separe o hardcore/punk do historiador e vice-versa, pois esses dois meios me formaram como pessoa. São partes constitutivas de minha individualidade.

03. Acho considerável a regularidade de lançamentos e shows fora de São Paulo d’O Cúmplice, ainda mais pra uma banda autônoma, sem incentivos maiores que os dos próprios integrantes. Depois de tanto feito, por que insistir e quais os planos pra daqui pra frente?

Isso é fruto de uma conversa que tivemos uns anos atrás. Os primeiros anos da banda foram meio turbulentos com mudança de formação, mas depois decidimos fazer a banda funcionar como acreditamos que deve ser. Ensaiando, compondo, tocando em shows (muitas vezes organizados por nós mesmos ou amigos), gravando, lançando, distribuindo e repetindo todo esse ciclo. Cada um contribui com o que pode. Eu escrevo todas as letras, tento organizar os lançamentos, através da Black Embers Records, e com selos parceiros e amigos. Os demais compõem todo instrumental. O Cauê é muito minucioso com a composição. Também ajuda muito na organização de shows. O Luiz, além da bateria, muitas vezes é a linha de frente para nossas tours e shows fora de São Paulo. A Karen e o Alessandro ajudam muito na parte de transporte, com os carros e correrias de equipamento. Cada um contribui de uma forma, dando o melhor de si, e se esmerando no que doa a banda. Nós insistimos, pois somos meio viciados nisso, mesmo. Todos trabalhamos, temos empregos regulares, quase todos estudamos, tocamos em outras bandas, temos nossos relacionamentos. Então é mais uma fatia da vida de cada um. Uma fatia onde se encontram essas cinco pessoas. A química e a amizade vem dando certo a quase duas décadas. 
O plano é terminar de compor nosso primeiro full. Acredito que seria uma forma legal de fechar esse primeiro momento da nossa discografia. Temos participações em coletâneas, um compacto 7” e três splits (Te Voy a Quebrar, Gracias por Nada e Besta). Falta um disco cheio, completo, entende? No momento temos 7 músicas novas, algumas delas já temos tocado ao vivo. A ideia é compor o que falta, tentar gravar esse ano, e continuar tocando, onde for possível.




04. Vocês tocaram em Goiânia e Brasília em 2014 e agora voltam pra mais três shows, incluindo Uberlândia na rota. O que esperar?

Rever os amigos, tocar da melhor maneira possível (o que nem sempre acontece, hehehehe), conversar bastante, distribuir material, ouvir os locais. Conhecer novas bandas também. Por exemplo, na última vez tocamos em Goiânia com o Diversões Eletrônicas e foi demais! É uma forma bem legal de entender como andam as movimentações e bandas nesses locais. Assim, podemos entender as diferenças que nos aproximam e as equidades que nos afastam. O nosso universo subterrâneo é vivo e dinâmico, e temos que buscar sempre conhece-lo melhor, se quisermos continuar produzindo dentro dele. 




quarta-feira, 12 de julho de 2017

Entrevista: Luís Felipe/Deadtrack (MG)

Apesar de não tão próxima na Geografia, você acha que a clássica cena metal de Belo Horizonte ainda reverbera sobre o que é produzido atualmente em termos de Hardcore/Punk/Metal em Minas? Aliás, seria legal falar um pouco sobre a cena (bandas, shows, locais) de Uberlândia atualmente.

Com certeza, no meu ponto de vista, BH sempre foi referência na música torta. O que foi feito nos anos 80 e 90, de fato marcou muito o subterrâneo e ecoa como referência estética e musical até hoje. Na capital sempre rolou muito evento do Punk ao Metal, e isso perpetua em Minas, com vários eventos que acontecem no cenário e mantém aquela característica "crua". Em Uberlândia vejo que é meio indefinida a cena, já que ela não se mistura muito, é sempre um pessoal que produz para determinado nicho, seja de metal e seus subgêneros e do outro lado punk/derivados. Existe gente que nunca parou e está a mais de 15 anos produzindo eventos independentes de metal extremo nas periferias, coletivos que apareceram e desaparecem, mas movimentam também. Os lugares estão cada vez mais difíceis de fazer eventos, a maioria das casas não abre espaço de forma alguma. Então, para conseguir fazer um, dá bastante trabalho. E isso influência demais, quando uma casa abre espaço, acontecem vários e depois por algum motivo o lugar resolve parar de fazer ou simplesmente fecha, e assim os shows dão uma caída.

Embora relativamente novo, você, seja com o Deadtrack ou com outras bandas, já circulou consideravelmente pelo eixo MG/SP, inclusive nos interiores. Com essa vivência, acha que dá pra fazer um comparativo entre os contextos interior/capital nos dois estados?

Cara, as vezes que rodamos, deu para fazer um comparativo. A minha impressão é que nas capitais os eventos estão sempre acontecendo com maior frequência, o que ajuda a movimentar mais e deixar sempre quente, mas por ter sempre, acaba sendo algo meio da rotina da cidade e às vezes mais de um evento no mesmo dia. Já no interior, vejo que rola com menos frequência, mas sempre muito intenso e caloroso.



No começo o Deadtrack era só você, e depois agregou outras pessoas pra gravar. Por que? O que você anda ouvindo e quais as principais referências (musicais ou não) pra composição da banda?

Então, em 2014 no começo pensava o Deadtrack como algo onde eu colocava umas ideias, mas sem muito compromisso com tocar ao vivo. Na época saiu uma tape pelo MetalpunkOverkill e Ultraviolence Records, e as apresentações que rolaram foram com o Pedro e o Hector do Martyrizer(BH), isso final de 2014/início de 2015. Depois disso foi meio natural a ‘’transformação’’ haha. Já faz vários anos, que nós desta formação atual, estamos fazendo som juntos em outras bandas e em 2015 tocamos juntos como Deadtrack pelo interior de SP e em Uberlândia. Assim, achei massa se fizessem parte como uma banda completa mesmo. Além do mais, nossa amizade permite compartilhar muita coisa. De som ouvindo basicamente o de sempre, do hardcore arrumadinho ao metal mais tosco haha, hora mais apegado com uma coisa, hora com outra. Dois nomes que ando ouvindo muito: LITOVSK, post-punk da frança e APHORISM de Salvador. Na composição da banda a gente tem tentado sempre colocar o que mais escutamos, sem necessariamente nos prender a algo. Vamos viajando entre o punk, industrial, o crust o metal… O Herison e o João estão sempre aparecendo com ideias novas e preocupados com a sonoridade. Na temática procuramos abordar temas cotidianos, conflitos pessoas e sociais, tentar não cair no óbvio, mas também de uma maneira que transmita o que estamos pensando.

Essa semana acontecerão três shows do Deadtrack, ao lado do Frieza e O Cúmplice. Quais as expectativas e quais os próximos passos da banda num futuro não tão distante?


As expectativas são as melhores possíveis, dar esse giro pelo cerrado com mais duas bandas e pessoas excelentes, conhecer e rever pessoas de Goiânia e Brasília, curtir o som, trocar ideias… Tudo isso que mantém vivo e faz valer a pena! Em relação ao Deadtrack, terminamos de gravar novas músicas e pretendemos lançar em breve um EP com os 3 sons acompanhados de um clipe que está sendo produzido por uns parceiros daqui de Uberlãndia. Estávamos com um baixista, o Túlio, na formação passada, da época do NIHIL que saiu no primeiro semestre de 2015 e também na formação que gravou o EP, mas ele saiu e agora o André Luiz (Murça) que é do Desventura (junto com o João) está assumindo o baixão e assim vamos seguindo com essa formação nova, continuar trabalhando em mais sons para gravar ainda este ano e tocar, tocar e tocar!

quarta-feira, 5 de julho de 2017

Beneath the Underground III - 10/06/17 (Brasília-DF)

No sábado, 10 de junho de 2017, aconteceu a terceira edição do Beneath The Underground, mais uma genuína aplicação do modus operandi "faça-você-mesmo" incansavelmente defendido pelos membros do Violator nesses tantos anos de gloriosa trajetória. Aliás, aos que suspeitam do contrário, reconheço que o exercício foi, talvez mais que nunca, levado ao pé da letra: logo na entrada os responsáveis pela portaria (ingressos, distribuição dos brindes patrocinados pela Kill Again Records, entrega das pulseiras, além do abraço caloroso) eram Batera e Poney; a pessoa que vendeu minhas primeiras fichas de cerveja foi Pedro Capaça, e não raras as vezes era visível o intermédio de algum dos quatro nas atividades que suportavam o (ótimo) andamento do evento - supervisão do palco, cuidados com horário, convocação da banda seguinte, bar, além de imprevistos de toda sorte, antes, durante e depois.


Com cerca de meia hora de um compreensível atraso, inaugura as atividades a Malicious Intent, banda formada por (P)Ícaro (Raw Records), Kaio (Absent, Kurgan), Cambito (Violator, Slaver) e André. Visivelmente prejudicados pela péssima acústica do imenso salão da ARUC, o pouco que se compreendia da massaroca sonora era o (bem intencionado) exercício de um death/grind old school calcado nas mentoras do estilo, como Repulsion e Terrorizer, mas com um dedinho de Autopsy aqui e outro ali. Difícil tecer um comentário mais pontual sobre as composições; embora haja ótima intenção (e conhecendo os caras sei que o potencial é imenso), a afinação baixa misturada à velocidade e ao fato de estar tudo MUITO ALTO prejudicou o bom andamento, pelo menos sonoro; em termos de performance encanta ver a desenvoltura de Cambito, ótimo guitarrista e que muito evoluiu com os anos de estrada com Violator, e a introspecção atormentada do Pícaro, tímido nos intervalos mas explosivo com o estralar do som. Desabafos e confusões à parte, aguardo uma próxima ocasião pra tirar conclusões mais apuradas.


Com um intervalo curto, vem na sequência o Ilizarov, banda de Formosa que conta com membros da Orgy of Flies e A Vala Comum. Em todos os quesitos, surpreendente, a começar pela regulagem: se durante o Malicious Intent o discernimento entre uma passagem e outra era quase impossível - e olha que passeei bastante pelo salão atrás do som ideal -, houve aqui a melhor conversa da noite. Tocando sabiamente mais baixo e abusando da desenvoltura do William, técnico de som que acompanha o Violator e que na ocasião fez o som de todas as bandas, o power trio se fez entender através de um som versátil, oscilando entre o death metal do Celtic Frost e Hellhammer, e o metalpunk multifacetado do Inepsy, mas teleguiados por um vocal gutural assustador. Fudido! Difícil pra caramba miscigenar estilos diversos sem soar perdido. Conseguiram com sobras. Uma das bandas novas mais legais da região.



A terceira banda era, por mim, a mais esperada da noite. Bairrismos à parte, considero o Desastre a grande cria do hardcore/punk em Goiânia, e foi uma surpresa pra lá de agradável saber que eles tocariam na íntegra o Procurando Saída, meu disco local predileto do gênero, de todos os tempos. Um pouco perdidos com os imprevistos técnicos - baixo estourando no retorno da bateria, corda da guitarra arrebentando logo no começo do show, Will com aquela mania quase charmosa de tão estranhamente genuína que é cantar fora do tempo -, e fizeram um show razoável para os criteriosos mas emocionante para os aficionados, como eu. Não fiz questão de procurar o melhor som porque o afeto aqui transcendia, logo, me contentei com a frente do palco e cantei emocionado boa parte do set. Acompanhar de perto hits absolutos como "A Ordem é o caos" e "Me diga que a morte seja apenas ilusão" foi de chorar. Literalmente. Que coisa deliciosa é ouvir um riff impactante saindo quentinho do amplificador. Melhor ainda é ver a desenvoltura dos jovens e a entrega do velho em tocar hardcore, punk e metal, simultaneamente, a essa altura da vida. Desfecharam com duas músicas gravadas com a nova formação, e de alma lavada saio, pego a sei lá, décima cerveja da noite, tomo um ar, e pouquíssimo tempo depois o Cemitério esboça os primeiro urros lá dentro do salão.


Meus amigos, que arregaço. Já havia ouvido os dois (ótimos) discos da banda, mas não imaginava o poder da coisa ao vivo. Enquanto assistia o show e batia cabeça sem pestanejar só conseguia pensar numa coisa: VIVA O DEATH METAL. E o mais louco é que, aqui, a temática de filmes de terror e as músicas, variando quase sempre entre dois e três minutos, dão um tom escrachado e cômico mas sem soar bobo, afinal, os riffs são matadores - fãs de Pestilence, ouçam essa banda! -, a presença do Hugo ao vivo é contagiante e os convidados pra tocar ao vivo - em estúdio Hugo grava tudo - dominam rigorosamente o que se propõem a fazer. Não é brincadeira não. A essa altura os stage dives já descambavam a torto e a direito, a pequena multidão em frente ao palco cantava as músicas com dedo em riste e ia, gradativamente, à loucura, com direito a um cover do Taurus (Damieeen!) que rolou já do meio pro final. Senti falta do cover do Vulcano, mas isso não comprometeu em nada, aliás, repito aqui as palavras passadas: que delícia é ouvir um riff foda saindo quentinho do amplificador. Internalizei essa conclusão umas dez vezes durante esse show, peguei mais uma ampola e fui descansar pra suportar as anfitriãs que, logo logo, desfechariam a celebração.


Já sabendo o que esperar, me dirijo às imediações do palco e sou bem recepcionado com o discurso sempre articulado do Poney, ressaltando que a dimensão do evento extrapola o Violator. "Somos só uma parte disso tudo", dizia ele. E nem precisava dizer. Quem acompanha a banda a muito tempo sabe a grandeza que é pros quatro fazer parte desse subterrâneo, cheio de falhas como qualquer ambiente, mas apaixonante por caminhar cada vez mais contra o que vida cobra. Um espaço de desabafos, que não pede compreensão ou racionalidade demais, só amor pela autonomia e por um som ora indigesto e que, como ele mesmo disse, "ninguém dá a mínima". Cientes disso, lá vão os quatro.


Com um set list variado, passando por todas as fases da banda, destaco as duas músicas que vão compor um futuro EP, mais com cara de death metal que nunca e reafirmando a autenticidade e quase dever de inovação inerentes à banda. Reparo nessas duas músicas uma valorização cada vez maior dos riffs, viscerais, e uma métrica curta da voz, mais rouca, mais do mal. Entre um discurso e outro aquele arrepio na espinha e eu já tinha esquecido do quanto me sinto parte, aliás, do quanto ter a rara sensação de me sentir incluso ao que quer que seja me faz vivo. Incrível o poder de um riff. Incrível dar um stage dive depois de sei lá quantos anos. A vivacidade do desajuste ainda encanta, e me sinto ainda mais encantado ao vivenciar o que me representa. Rever meus amigos num show de música barulhenta me representa; ver toda a economia autônoma através das várias banquinhas com material independente, sem pretensão além de subsistência, me representa; resignificar um salão de escola de samba pra fazer show de metal e correr o risco de tomar prejú, por merda que seja, me representa; absorver o som e me deixar levar por ele, seja como for, me representa; nessa noite, embriagado por tudo que vivi e senti, reafirmo o que digo desde que vi a banda pela primeira vez, naquele fatídico 23 de outubro de 2004, primeiro show que mudou minha vida até então, e que assim seja até quando for, eterno até quando fizer sentido: 

o Violator me representa.