quarta-feira, 5 de julho de 2017

Beneath the Underground III - 10/06/17 (Brasília-DF)

No sábado, 10 de junho de 2017, aconteceu a terceira edição do Beneath The Underground, mais uma genuína aplicação do modus operandi "faça-você-mesmo" incansavelmente defendido pelos membros do Violator nesses tantos anos de gloriosa trajetória. Aliás, aos que suspeitam do contrário, reconheço que o exercício foi, talvez mais que nunca, levado ao pé da letra: logo na entrada os responsáveis pela portaria (ingressos, distribuição dos brindes patrocinados pela Kill Again Records, entrega das pulseiras, além do abraço caloroso) eram Batera e Poney; a pessoa que vendeu minhas primeiras fichas de cerveja foi Pedro Capaça, e não raras as vezes era visível o intermédio de algum dos quatro nas atividades que suportavam o (ótimo) andamento do evento - supervisão do palco, cuidados com horário, convocação da banda seguinte, bar, além de imprevistos de toda sorte, antes, durante e depois.


Com cerca de meia hora de um compreensível atraso, inaugura as atividades a Malicious Intent, banda formada por (P)Ícaro (Raw Records), Kaio (Absent, Kurgan), Cambito (Violator, Slaver) e André. Visivelmente prejudicados pela péssima acústica do imenso salão da ARUC, o pouco que se compreendia da massaroca sonora era o (bem intencionado) exercício de um death/grind old school calcado nas mentoras do estilo, como Repulsion e Terrorizer, mas com um dedinho de Autopsy aqui e outro ali. Difícil tecer um comentário mais pontual sobre as composições; embora haja ótima intenção (e conhecendo os caras sei que o potencial é imenso), a afinação baixa misturada à velocidade e ao fato de estar tudo MUITO ALTO prejudicou o bom andamento, pelo menos sonoro; em termos de performance encanta ver a desenvoltura de Cambito, ótimo guitarrista e que muito evoluiu com os anos de estrada com Violator, e a introspecção atormentada do Pícaro, tímido nos intervalos mas explosivo com o estralar do som. Desabafos e confusões à parte, aguardo uma próxima ocasião pra tirar conclusões mais apuradas.


Com um intervalo curto, vem na sequência o Ilizarov, banda de Formosa que conta com membros da Orgy of Flies e A Vala Comum. Em todos os quesitos, surpreendente, a começar pela regulagem: se durante o Malicious Intent o discernimento entre uma passagem e outra era quase impossível - e olha que passeei bastante pelo salão atrás do som ideal -, houve aqui a melhor conversa da noite. Tocando sabiamente mais baixo e abusando da desenvoltura do William, técnico de som que acompanha o Violator e que na ocasião fez o som de todas as bandas, o power trio se fez entender através de um som versátil, oscilando entre o death metal do Celtic Frost e Hellhammer, e o metalpunk multifacetado do Inepsy, mas teleguiados por um vocal gutural assustador. Fudido! Difícil pra caramba miscigenar estilos diversos sem soar perdido. Conseguiram com sobras. Uma das bandas novas mais legais da região.



A terceira banda era, por mim, a mais esperada da noite. Bairrismos à parte, considero o Desastre a grande cria do hardcore/punk em Goiânia, e foi uma surpresa pra lá de agradável saber que eles tocariam na íntegra o Procurando Saída, meu disco local predileto do gênero, de todos os tempos. Um pouco perdidos com os imprevistos técnicos - baixo estourando no retorno da bateria, corda da guitarra arrebentando logo no começo do show, Will com aquela mania quase charmosa de tão estranhamente genuína que é cantar fora do tempo -, e fizeram um show razoável para os criteriosos mas emocionante para os aficionados, como eu. Não fiz questão de procurar o melhor som porque o afeto aqui transcendia, logo, me contentei com a frente do palco e cantei emocionado boa parte do set. Acompanhar de perto hits absolutos como "A Ordem é o caos" e "Me diga que a morte seja apenas ilusão" foi de chorar. Literalmente. Que coisa deliciosa é ouvir um riff impactante saindo quentinho do amplificador. Melhor ainda é ver a desenvoltura dos jovens e a entrega do velho em tocar hardcore, punk e metal, simultaneamente, a essa altura da vida. Desfecharam com duas músicas gravadas com a nova formação, e de alma lavada saio, pego a sei lá, décima cerveja da noite, tomo um ar, e pouquíssimo tempo depois o Cemitério esboça os primeiro urros lá dentro do salão.


Meus amigos, que arregaço. Já havia ouvido os dois (ótimos) discos da banda, mas não imaginava o poder da coisa ao vivo. Enquanto assistia o show e batia cabeça sem pestanejar só conseguia pensar numa coisa: VIVA O DEATH METAL. E o mais louco é que, aqui, a temática de filmes de terror e as músicas, variando quase sempre entre dois e três minutos, dão um tom escrachado e cômico mas sem soar bobo, afinal, os riffs são matadores - fãs de Pestilence, ouçam essa banda! -, a presença do Hugo ao vivo é contagiante e os convidados pra tocar ao vivo - em estúdio Hugo grava tudo - dominam rigorosamente o que se propõem a fazer. Não é brincadeira não. A essa altura os stage dives já descambavam a torto e a direito, a pequena multidão em frente ao palco cantava as músicas com dedo em riste e ia, gradativamente, à loucura, com direito a um cover do Taurus (Damieeen!) que rolou já do meio pro final. Senti falta do cover do Vulcano, mas isso não comprometeu em nada, aliás, repito aqui as palavras passadas: que delícia é ouvir um riff foda saindo quentinho do amplificador. Internalizei essa conclusão umas dez vezes durante esse show, peguei mais uma ampola e fui descansar pra suportar as anfitriãs que, logo logo, desfechariam a celebração.


Já sabendo o que esperar, me dirijo às imediações do palco e sou bem recepcionado com o discurso sempre articulado do Poney, ressaltando que a dimensão do evento extrapola o Violator. "Somos só uma parte disso tudo", dizia ele. E nem precisava dizer. Quem acompanha a banda a muito tempo sabe a grandeza que é pros quatro fazer parte desse subterrâneo, cheio de falhas como qualquer ambiente, mas apaixonante por caminhar cada vez mais contra o que vida cobra. Um espaço de desabafos, que não pede compreensão ou racionalidade demais, só amor pela autonomia e por um som ora indigesto e que, como ele mesmo disse, "ninguém dá a mínima". Cientes disso, lá vão os quatro.


Com um set list variado, passando por todas as fases da banda, destaco as duas músicas que vão compor um futuro EP, mais com cara de death metal que nunca e reafirmando a autenticidade e quase dever de inovação inerentes à banda. Reparo nessas duas músicas uma valorização cada vez maior dos riffs, viscerais, e uma métrica curta da voz, mais rouca, mais do mal. Entre um discurso e outro aquele arrepio na espinha e eu já tinha esquecido do quanto me sinto parte, aliás, do quanto ter a rara sensação de me sentir incluso ao que quer que seja me faz vivo. Incrível o poder de um riff. Incrível dar um stage dive depois de sei lá quantos anos. A vivacidade do desajuste ainda encanta, e me sinto ainda mais encantado ao vivenciar o que me representa. Rever meus amigos num show de música barulhenta me representa; ver toda a economia autônoma através das várias banquinhas com material independente, sem pretensão além de subsistência, me representa; resignificar um salão de escola de samba pra fazer show de metal e correr o risco de tomar prejú, por merda que seja, me representa; absorver o som e me deixar levar por ele, seja como for, me representa; nessa noite, embriagado por tudo que vivi e senti, reafirmo o que digo desde que vi a banda pela primeira vez, naquele fatídico 23 de outubro de 2004, primeiro show que mudou minha vida até então, e que assim seja até quando for, eterno até quando fizer sentido: 

o Violator me representa.



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