No sábado, 10 de junho de 2017, aconteceu a terceira edição
do Beneath The Underground, mais uma genuína aplicação do modus operandi
"faça-você-mesmo" incansavelmente defendido pelos membros do Violator
nesses tantos anos de gloriosa trajetória. Aliás, aos que suspeitam do
contrário, reconheço que o exercício foi, talvez mais que nunca, levado ao pé
da letra: logo na entrada os responsáveis pela portaria (ingressos,
distribuição dos brindes patrocinados pela Kill Again Records, entrega das
pulseiras, além do abraço caloroso) eram Batera e Poney; a pessoa que vendeu
minhas primeiras fichas de cerveja foi Pedro Capaça, e não raras as vezes era
visível o intermédio de algum dos quatro nas atividades que suportavam o
(ótimo) andamento do evento - supervisão do palco, cuidados com horário,
convocação da banda seguinte, bar, além de imprevistos de toda sorte, antes,
durante e depois.
Com cerca de meia hora de um compreensível atraso, inaugura
as atividades a Malicious Intent, banda formada por (P)Ícaro (Raw Records),
Kaio (Absent, Kurgan), Cambito (Violator, Slaver) e André. Visivelmente
prejudicados pela péssima acústica do imenso salão da ARUC, o pouco que se
compreendia da massaroca sonora era o (bem intencionado) exercício de um
death/grind old school calcado nas mentoras do estilo, como Repulsion e
Terrorizer, mas com um dedinho de Autopsy aqui e outro ali. Difícil tecer um
comentário mais pontual sobre as composições; embora haja ótima intenção (e
conhecendo os caras sei que o potencial é imenso), a afinação baixa misturada à
velocidade e ao fato de estar tudo MUITO ALTO prejudicou o bom andamento, pelo
menos sonoro; em termos de performance encanta ver a desenvoltura de Cambito,
ótimo guitarrista e que muito evoluiu com os anos de estrada com Violator, e a
introspecção atormentada do Pícaro, tímido nos intervalos mas explosivo com o
estralar do som. Desabafos e confusões à parte, aguardo uma próxima ocasião pra
tirar conclusões mais apuradas.
Com um intervalo curto, vem na sequência o Ilizarov, banda de
Formosa que conta com membros da Orgy of Flies e A Vala Comum. Em todos os
quesitos, surpreendente, a começar pela regulagem: se durante o Malicious
Intent o discernimento entre uma passagem e outra era quase impossível - e olha
que passeei bastante pelo salão atrás do som ideal -, houve aqui a melhor
conversa da noite. Tocando sabiamente mais baixo e abusando da desenvoltura do
William, técnico de som que acompanha o Violator e que na ocasião fez o som de
todas as bandas, o power trio se fez entender através de um som versátil,
oscilando entre o death metal do Celtic Frost e Hellhammer, e o metalpunk
multifacetado do Inepsy, mas teleguiados por um vocal gutural assustador.
Fudido! Difícil pra caramba miscigenar estilos diversos sem soar perdido.
Conseguiram com sobras. Uma das bandas novas mais legais da região.
A terceira banda era, por mim, a mais esperada da noite.
Bairrismos à parte, considero o Desastre a grande cria do hardcore/punk em
Goiânia, e foi uma surpresa pra lá de agradável saber que eles tocariam na
íntegra o Procurando Saída, meu disco local predileto do gênero, de todos os
tempos. Um pouco perdidos com os imprevistos técnicos - baixo estourando no
retorno da bateria, corda da guitarra arrebentando logo no começo do show, Will
com aquela mania quase charmosa de tão estranhamente genuína que é cantar fora
do tempo -, e fizeram um show razoável para os criteriosos mas emocionante para
os aficionados, como eu. Não fiz questão de procurar o melhor som porque o
afeto aqui transcendia, logo, me contentei com a frente do palco e cantei
emocionado boa parte do set. Acompanhar de perto hits absolutos como "A
Ordem é o caos" e "Me diga que a morte seja apenas ilusão" foi
de chorar. Literalmente. Que coisa deliciosa é ouvir um riff impactante saindo
quentinho do amplificador. Melhor ainda é ver a desenvoltura dos jovens e a
entrega do velho em tocar hardcore, punk e metal, simultaneamente, a essa
altura da vida. Desfecharam com duas músicas gravadas com a nova formação, e de
alma lavada saio, pego a sei lá, décima cerveja da noite, tomo um ar, e
pouquíssimo tempo depois o Cemitério esboça os primeiro urros lá dentro do
salão.
Meus amigos, que arregaço. Já havia ouvido os dois (ótimos)
discos da banda, mas não imaginava o poder da coisa ao vivo. Enquanto assistia
o show e batia cabeça sem pestanejar só conseguia pensar numa coisa: VIVA O
DEATH METAL. E o mais louco é que, aqui, a temática de filmes de terror e as
músicas, variando quase sempre entre dois e três minutos, dão um tom escrachado
e cômico mas sem soar bobo, afinal, os riffs são matadores - fãs de Pestilence,
ouçam essa banda! -, a presença do Hugo ao vivo é contagiante e os convidados
pra tocar ao vivo - em estúdio Hugo grava tudo - dominam rigorosamente o que se
propõem a fazer. Não é brincadeira não. A essa altura os stage dives já
descambavam a torto e a direito, a pequena multidão em frente ao palco cantava
as músicas com dedo em riste e ia, gradativamente, à loucura, com direito a um
cover do Taurus (Damieeen!) que rolou já do meio pro final. Senti falta do
cover do Vulcano, mas isso não comprometeu em nada, aliás, repito aqui as
palavras passadas: que delícia é ouvir um riff foda saindo quentinho do
amplificador. Internalizei essa conclusão umas dez vezes durante esse show,
peguei mais uma ampola e fui descansar pra suportar as anfitriãs que, logo
logo, desfechariam a celebração.
Já sabendo o que esperar, me dirijo às imediações do palco e
sou bem recepcionado com o discurso sempre articulado do Poney, ressaltando que
a dimensão do evento extrapola o Violator. "Somos só uma parte disso
tudo", dizia ele. E nem precisava dizer. Quem acompanha a banda a muito tempo
sabe a grandeza que é pros quatro fazer parte desse subterrâneo, cheio de
falhas como qualquer ambiente, mas apaixonante por caminhar cada vez mais
contra o que vida cobra. Um espaço de desabafos, que não pede compreensão ou
racionalidade demais, só amor pela autonomia e por um som ora indigesto e que,
como ele mesmo disse, "ninguém dá a mínima". Cientes disso, lá vão os
quatro.
Com um set list variado, passando por todas as fases da
banda, destaco as duas músicas que vão compor um futuro EP, mais com cara de
death metal que nunca e reafirmando a autenticidade e quase dever de inovação
inerentes à banda. Reparo nessas duas músicas uma valorização cada vez maior
dos riffs, viscerais, e uma métrica curta da voz, mais rouca, mais do mal.
Entre um discurso e outro aquele arrepio na espinha e eu já tinha esquecido do
quanto me sinto parte, aliás, do quanto ter a rara sensação de me sentir
incluso ao que quer que seja me faz vivo. Incrível o poder de um riff. Incrível
dar um stage dive depois de sei lá quantos anos. A vivacidade do desajuste
ainda encanta, e me sinto ainda mais encantado ao vivenciar o que me
representa. Rever meus amigos num show de música barulhenta me representa; ver
toda a economia autônoma através das várias banquinhas com material
independente, sem pretensão além de subsistência, me representa; resignificar
um salão de escola de samba pra fazer show de metal e correr o risco de tomar
prejú, por merda que seja, me representa; absorver o som e me deixar levar por
ele, seja como for, me representa; nessa noite, embriagado por tudo que vivi e
senti, reafirmo o que digo desde que vi a banda pela primeira vez, naquele
fatídico 23 de outubro de 2004, primeiro show que mudou minha vida até então, e
que assim seja até quando for, eterno até quando fizer sentido:


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