quarta-feira, 19 de julho de 2017

Terror Fest - 18 years of persistence and noise! - 17/06/2017 (Brasília-DF)

Exatamente uma semana depois de ir a Brasília em função do inesquecível Beneath The Underground, me desloquei novamente à capital para participar do Terror Fest, tradicional festa de aniversário do Terror Revolucionário, todavia com motivação especial, além da óbvia: despedida das anfitriãs para sua primeira turnê na Europa. 


As bandas escaladas pra festa foram Malicious Intent, Ilizarov - ambas vi na semana anterior, mas a ansiedade pra vê-las novamente era grande -, Dead Meat, de Goiânia, e Ímpeto, banda que integro desde meados de 2005. Uma honra fazer parte dessa festa, aliás, uma honra me dar conta que o Ímpeto, mesmo sem ensaiar, levando as coisas na máxima despretensão possível, ainda me traz vivacidade e entusiasmo depois de tanto tempo. Chamam isso de amizade, né? Pois bem, combinado o horário de partida, me prontifiquei com mochila munida de blusa de frio, CAZER com pratos de bateria, e em casa fiquei, à espera de Guga, Bacural e André pra seguirmos viagem até o Saloon Red Rock, na Samambaia.

Com um considerável atraso chegam os energuminos e só ali na hora me dou conta que iriamos em dois carros: um lotado com Bacural, Guga e respectivas namoradas, e outro, com eu e André. Feita a logística da partida, o carro com Bacural e Guga dispara na frente e vamos eu e André, ouvindo Led Zeppelin, exercitando a nerdice pura e aplicada de som e contemplando o pôr-do-sol do cerrado, um degradê avermelhado maravilhoso que de cara deu vontade de parar no acostamento, colocar um Neil Young, erguer as pernas sob as janelas e imergir no horizonte infindável à frente. Clima fresco e agradável, céu gigante, colorido e libertador que tão logo desperta vontade de sumir pro meio do mato por vai saber quanto tempo. Um plano futuro, de repente. Quem sabe? Cientes que sair além do horário previsto não foi tão má ideia assim seguimos até o Jerivá, parada obrigatória e ponto de encontro com o resto da gangue.


Dois pastéis de queijo e um café depois seguimos viagem, eles na frente - Guga já estava atrasado pois tocaria com Dead Meat, terceira banda da noite - e nós láá atrás, numa calmaria sem fim e ainda contagiados pelo clima acolhedor do fim de tarde. Curtindo o Ride The Lightning e em seguida um Minor Threat inspirador chegamos ao local, guiados pelo GPS (quase) infalível. Um amontoado de rockeiros na porta facilitou a identificação, e de prontidão adentramos o cercadinho que envolve a calçada de acesso à rampa que desemboca no espaço pros shows. Logo de cara encontro alguns amigos que me recepcionam com um calor que tapeava o proto-frio da noite e eis que, motivado pelo entusiasmo do Capitão Barbosa, compro uma cartela pro bingo que sortearia brindes e de quebra ajudaria com os custos da viagem do Terror. Sob a melhor das hospitalidades, já desço a rampinha pra ver quem tava tocando. 

Por conta do atraso perdemos Malicious Intent e Ilizarov, o que me deixou chateado a princípio mas desencanado em seguida. Oportunidades pra vê-los não faltarão, tenho certeza. Aos que não conhecem, posso dizer que o Saloon lembra bastante aquele circuito subterrâneo do CONIC onde rolaram os históricos Caga Sangue Thrash: estreito no comprimento, espaçoso em largura, teto relativamente baixo mas com um palquinho suficiente pra contemplar o aparato de som do Ed, além de um balcão pro bar logo ali. Perfeito pra shows do nosso porte, tanto pra vazão do som quanto pra proximidade público-banda. Espero(amos) que persista!


Pois bem, o Dead Meat já tocava e posso dizer que foi o melhor show deles que já vi. As músicas novas tão um estouro, evolução notável tanto em composição quanto em execução. Acho louco porque o clima cavernoso da clara referência Sepultura/Schizofrenia perdura, mas o virtuosismo das passagens e força, impacto dos sons, flertando com o Death Metal, já denotam um passo além, mais pro Demolition Hammer era Epidemic of Violence e Sepultura/Beneath The Remains. Vocal do Gustavo cada vez melhor, mais em cima, Guga mais seguro e Urbano, embora estivesse com o braço bichado, tocou certinho. Hector Homem-Palco, ex membro e um dos fundadores do Terror Revolucionário, vendo o show ao meu lado e de Bacural, não se cansa de aplaudir entre os intervalos, sempre com um notável sorriso no rosto largo e dizendo "esses caras tão com raiva, ein?!". Discursos afiados de Gustavo vão dando o tom dos intervalos, bangers se divertindo nas imediações e o show acaba, dando lugar ao bingo e à revelação da rifa, todas formas de levantar um troco pra ajudar os donos da festa pra tour de logo mais.


Se tem uma coisa que aprendi a adorar nessas dezenas de idas a Brasília em função do rock é o jeito despojado que certas figuras tratam coisa séria. Nessas de fazer dinheiro pra custear uma ida na raça à Europa, os membros do Terror Revolucionário se viraram de tudo quanto é jeito, sempre incentivados por parceiros que disponibilizaram tempo e brindes de toda a sorte. Com a cartela de bingo a dez reais os contemplados ganhariam uma cesta abarrotada de cervejas artesanais, garrafa de cachaça para o segundo colocado, e brindes - caneca, camisetas e cd's de bandas undergrounds, etc - para os próximos três ou quatro sorteados. Sob a narração efusiva e engraçadíssima de Capitão Barbosa, Marcelo Podrera e Hector Homem-Palco, as bolinhas do bingo vão sendo anunciadas, sempre com uma piadinha infame entre uma e outra, o que, imediatamente, me traz à memória a mesma era Caga Sangue Thrash, inesquecível época do subterrâneo brasiliense que conciliava, com toda maestria possível, os jargões políticos do underground com discotecagem tosca, bandas barulhentas e diversão a todo custo. Uma fase que formou caráter de muita gente, sobretudo graças à mente perturbada do Barbosa, incansável, e que nessa noite era só sorriso. 


Fato é que, no frigir dos ovos, Julião, outra figura icônica do DF, ganhou a cesta de cerveja mesmo que, pelo que disseram, não seja lá um apreciador da bebida. Bingo é bingo. Segundo lugar quem tirou foi meu conterrâneo Israel, outra figura carimbada do rock e de tudo mais, desde sempre. Grande figura. Merecidasso. Depois vi que Josefer, o irmão de Jeffer, fechou duas cartelas e ganhou premiações seguidas. Cagão! Eu fiquei só na vontade, e a essa altura, embriagado de bom humor e da ajuda de Felipe CDC - um guaraná Antartica 2 dois litros, um pacote de bolacha Bono (essa devidamente guardada pra viagem de volta), e uma garrafa de água -, me preparava pra montar as coisas, já que o Ímpeto seria a próxima banda. 


Com um tempo considerável pra ajeitar as coisas, montamos tudo e passamos o som de leve, coisa de meia música de um minuto, algo próximo do nosso suficiente, mesmo. O Ed, responsável pelo som, é um velho conhecido, tá sempre montando aparelhagem e manuseando a mesa nos shows por lá. Costuma acertar a mão pro que a gente quer. Tirando o fato do baixo ter dados umas consideráveis osciladas de volume nos PA's e do meu ride ter caído numa das últimas músicas - fui devidamente amparado por Marcelo Podrera, tudo em casa -, gostei do nosso show. As mesmas piadas cretinas alternando com discursos de impacto do Bacural, Guga pulando (!) e André na contenção, ou seja, fora isso ou aquilo que não resumem nada, correu tudo dentro das normalidades. Aliás, levando em conta que não ensaiamos (isso pro Ímpeto é rotineiro mesmo), foi ok, até porque as músicas são as mesmas de quase sempre, exceto por um cover do Psykoze que reinventamos num show três dias antes e re-aplicamos lá na hora. Modéstia à parte mas gente se entende. Pudera, né? Pra acabar essa amassação de barro pretensiosa só queria registrar que amo tocar com esses caras. Acho que o Ímpeto só existe até hoje porque não tem qualquer exigência ou cobrança. Nada contra o contrário, mas nosso ritmo é outro. Celebração de onda boa e amizade, pretensão zero. Funciona até hoje porque é assim. E nesse ritmo eu espero que não acabe nunca. Obrigado, amigos!


Passada a euforia e desmontada a nossa estruturinha básica, era vez de pegar um ar e esperar pelo show do Terror, aniversariante da noite. 

Sob um clima de festa e com o (ótimo) público feliz e à vontade, o Terror destila o veneno do crust tradicional em uns quase quarenta minutos de show. Várias músicas emendadas são intercaladas com discursos de imensa gratidão da parte de CDC e Barbosa, visivelmente emocionados. Entre um bangeamento e outro ali na frente do palquinho fiquei pensando: parece fácil mas não é. Por mais que as músicas tenham aquela estrutura básica típica de quem ouviu muito Doom e Extreme Noise Terror na vida, criar e recriar uma infinidade de sons sem soar minimamente pretensioso ou enjoativo em 18 anos de trajetória é coisa de quem sabe o que quer e gosta do que faz. Aliás, ponto aqui talvez nem seja esse, por mais importante que seja. Toda a mobilização das mais diversas pessoas em ajudar o Terror a custear a tour é só mais um sinal do quanto Jeffer, Felipe, Adriana e Barbosa são pessoas queridas, importantes, honestas e companheiras. A banda agrega todo tipo de público, pela banda em si, claro, mas parte disso também é sobre a satisfação em vê-los juntos, justamente porque eles sempre fizeram questão demais de ver os outros. Só aqui em Goiânia já vieram uma centena de vezes. Brasília e entorno, nem se fala. A tour na Europa é a cereja do bolo, conquista mais que importante e merecida, desenrolada na raça e persistência de quem abraça o subterrâneo com todas as forças desse mundo. Inspirador mesmo. Escrevi meu primeiro zine por causa do Felipe CDC. Reafirmei minha fixação por tocar bateria depois de ver a banda em ação pela primeira vez, no extinto terra do Nunca, lá em sei lá, 2004 ou 2005. Isso sem contar as pessoalidades, o abraço caloroso e a satisfação que os quatro exalam. Pessoas incríveis, banda incrível. Vida longa ao Terror Revolucionário!


Show terminado, sensação de alívio e prazer no rostos dos presentes. Dou uma volta pra despedir do pessoal e compro uma camiseta da banda. A noite cai e o frio vem junto. Entramos no carro, trilha sonora branda pra uma volta de mais conversa com André e quando me dou conta já estou em casa. Mais uma noite que acaba e mais uma etapa dessa reafirmação constante: agregar em função do som é a coisa mais legal da minha vida. 



Fotos: Rockeragem 


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