Exatamente uma semana depois de ir a Brasília em
função do inesquecível Beneath The Underground, me desloquei novamente à
capital para participar do Terror Fest, tradicional festa de aniversário do
Terror Revolucionário, todavia com motivação especial, além da óbvia: despedida
das anfitriãs para sua primeira turnê na Europa.
As bandas escaladas pra festa foram
Malicious Intent, Ilizarov - ambas vi na semana anterior, mas a ansiedade pra
vê-las novamente era grande -, Dead Meat, de Goiânia, e Ímpeto, banda que integro desde meados de 2005. Uma honra fazer parte dessa festa, aliás,
uma honra me dar conta que o Ímpeto, mesmo sem ensaiar, levando as coisas na
máxima despretensão possível, ainda me traz vivacidade e entusiasmo depois de
tanto tempo. Chamam isso de amizade, né? Pois bem, combinado o horário de
partida, me prontifiquei com mochila munida de blusa de frio, CAZER com pratos
de bateria, e em casa fiquei, à espera de Guga, Bacural e André pra seguirmos
viagem até o Saloon Red Rock, na Samambaia.
Com um considerável atraso chegam os
energuminos e só ali na hora me dou conta que iriamos em dois carros: um
lotado com Bacural, Guga e respectivas namoradas, e outro, com eu e André.
Feita a logística da partida, o carro com Bacural e Guga dispara na frente e
vamos eu e André, ouvindo Led Zeppelin, exercitando a nerdice pura e aplicada
de som e contemplando o pôr-do-sol do cerrado, um degradê avermelhado
maravilhoso que de cara deu vontade de parar no acostamento, colocar um Neil
Young, erguer as pernas sob as janelas e imergir no horizonte infindável à
frente. Clima fresco e agradável, céu gigante, colorido e libertador que tão
logo desperta vontade de sumir pro meio do mato por vai saber quanto tempo. Um
plano futuro, de repente. Quem sabe? Cientes que sair além do horário previsto
não foi tão má ideia assim seguimos até o Jerivá, parada obrigatória e ponto de
encontro com o resto da gangue.
Dois pastéis de queijo e um café
depois seguimos viagem, eles na frente - Guga já estava atrasado pois tocaria
com Dead Meat, terceira banda da noite - e nós láá atrás, numa calmaria sem fim
e ainda contagiados pelo clima acolhedor do fim de tarde. Curtindo o Ride The
Lightning e em seguida um Minor Threat inspirador chegamos ao local, guiados
pelo GPS (quase) infalível. Um amontoado de rockeiros na porta facilitou a
identificação, e de prontidão adentramos o cercadinho que envolve a calçada de
acesso à rampa que desemboca no espaço pros shows. Logo de cara encontro alguns
amigos que me recepcionam com um calor que tapeava o proto-frio da noite e eis
que, motivado pelo entusiasmo do Capitão Barbosa, compro uma cartela pro bingo
que sortearia brindes e de quebra ajudaria com os custos da viagem do Terror.
Sob a melhor das hospitalidades, já desço a rampinha pra ver quem tava
tocando.
Por conta do atraso perdemos
Malicious Intent e Ilizarov, o que me deixou chateado a princípio mas
desencanado em seguida. Oportunidades pra vê-los não faltarão, tenho certeza.
Aos que não conhecem, posso dizer que o Saloon lembra bastante aquele circuito
subterrâneo do CONIC onde rolaram os históricos Caga Sangue Thrash: estreito no
comprimento, espaçoso em largura, teto relativamente baixo mas com um palquinho
suficiente pra contemplar o aparato de som do Ed, além de um balcão pro bar
logo ali. Perfeito pra shows do nosso porte, tanto pra vazão do som quanto pra
proximidade público-banda. Espero(amos) que persista!
Pois bem, o Dead Meat já tocava e
posso dizer que foi o melhor show deles que já vi. As músicas novas tão um
estouro, evolução notável tanto em composição quanto em execução. Acho louco
porque o clima cavernoso da clara referência Sepultura/Schizofrenia perdura,
mas o virtuosismo das passagens e força, impacto dos sons, flertando com o
Death Metal, já denotam um passo além, mais pro Demolition Hammer era Epidemic
of Violence e Sepultura/Beneath The Remains. Vocal do Gustavo cada vez melhor,
mais em cima, Guga mais seguro e Urbano, embora estivesse com o braço bichado,
tocou certinho. Hector Homem-Palco, ex membro e um dos fundadores do Terror
Revolucionário, vendo o show ao meu lado e de Bacural, não se cansa de aplaudir
entre os intervalos, sempre com um notável sorriso no rosto largo e dizendo
"esses caras tão com raiva, ein?!". Discursos afiados de Gustavo vão
dando o tom dos intervalos, bangers se divertindo nas imediações e o show acaba,
dando lugar ao bingo e à revelação da rifa, todas formas de levantar um troco
pra ajudar os donos da festa pra tour de logo mais.
Se tem uma coisa que aprendi a adorar
nessas dezenas de idas a Brasília em função do rock é o jeito despojado que
certas figuras tratam coisa séria. Nessas de fazer dinheiro pra custear uma ida
na raça à Europa, os membros do Terror Revolucionário se viraram de tudo quanto
é jeito, sempre incentivados por parceiros que disponibilizaram tempo e brindes
de toda a sorte. Com a cartela de bingo a dez reais os contemplados ganhariam
uma cesta abarrotada de cervejas artesanais, garrafa de cachaça para o segundo
colocado, e brindes - caneca, camisetas e cd's de bandas undergrounds, etc -
para os próximos três ou quatro sorteados. Sob a narração efusiva e
engraçadíssima de Capitão Barbosa, Marcelo Podrera e Hector Homem-Palco, as
bolinhas do bingo vão sendo anunciadas, sempre com uma piadinha infame entre
uma e outra, o que, imediatamente, me traz à memória a mesma era Caga Sangue Thrash,
inesquecível época do subterrâneo brasiliense que conciliava, com toda maestria
possível, os jargões políticos do underground com discotecagem tosca, bandas
barulhentas e diversão a todo custo. Uma fase que formou caráter de muita
gente, sobretudo graças à mente perturbada do Barbosa, incansável, e que nessa noite era só sorriso.
Fato é que, no frigir dos ovos,
Julião, outra figura icônica do DF, ganhou a cesta de cerveja mesmo que, pelo
que disseram, não seja lá um apreciador da bebida. Bingo é bingo. Segundo lugar
quem tirou foi meu conterrâneo Israel, outra figura carimbada do rock e de tudo
mais, desde sempre. Grande figura. Merecidasso. Depois vi que Josefer, o irmão
de Jeffer, fechou duas cartelas e ganhou premiações seguidas. Cagão! Eu fiquei
só na vontade, e a essa altura, embriagado de bom humor e da ajuda de Felipe
CDC - um guaraná Antartica 2 dois litros, um pacote de bolacha Bono (essa
devidamente guardada pra viagem de volta), e uma garrafa de água -, me
preparava pra montar as coisas, já que o Ímpeto seria a próxima banda.
Com um tempo considerável pra ajeitar
as coisas, montamos tudo e passamos o som de leve, coisa de meia música de um
minuto, algo próximo do nosso suficiente, mesmo. O Ed, responsável pelo som, é
um velho conhecido, tá sempre montando aparelhagem e manuseando a mesa nos
shows por lá. Costuma acertar a mão pro que a gente quer.
Tirando o fato do baixo ter dados umas consideráveis osciladas de volume nos
PA's e do meu ride ter caído numa das últimas músicas - fui devidamente
amparado por Marcelo Podrera, tudo em casa -, gostei do nosso show. As mesmas
piadas cretinas alternando com discursos de impacto do Bacural, Guga pulando
(!) e André na contenção, ou seja, fora isso ou aquilo que não resumem nada, correu tudo dentro das normalidades. Aliás, levando em conta que não ensaiamos
(isso pro Ímpeto é rotineiro mesmo), foi ok, até porque as músicas são as
mesmas de quase sempre, exceto por um cover do Psykoze que reinventamos num
show três dias antes e re-aplicamos lá na hora. Modéstia à parte mas gente se
entende. Pudera, né? Pra acabar essa amassação de barro pretensiosa
só queria registrar que amo tocar com esses caras. Acho que o Ímpeto só existe
até hoje porque não tem qualquer exigência ou cobrança. Nada contra o
contrário, mas nosso ritmo é outro. Celebração de onda boa e amizade, pretensão zero. Funciona até hoje porque é assim. E nesse ritmo eu espero que não
acabe nunca. Obrigado, amigos!
Passada a euforia e desmontada a
nossa estruturinha básica, era vez de pegar um ar e esperar pelo show do
Terror, aniversariante da noite.
Sob um clima de festa e com o (ótimo)
público feliz e à vontade, o Terror destila o veneno do crust tradicional em
uns quase quarenta minutos de show. Várias músicas emendadas são intercaladas
com discursos de imensa gratidão da parte de CDC e Barbosa, visivelmente
emocionados. Entre um bangeamento e outro ali na frente do palquinho fiquei
pensando: parece fácil mas não é. Por mais que as músicas tenham aquela
estrutura básica típica de quem ouviu muito Doom e Extreme Noise Terror na
vida, criar e recriar uma infinidade de sons sem soar minimamente pretensioso
ou enjoativo em 18 anos de trajetória é coisa de quem sabe o que quer e gosta
do que faz. Aliás, ponto aqui talvez nem seja esse, por mais importante que
seja. Toda a mobilização das mais diversas pessoas em ajudar o Terror a custear
a tour é só mais um sinal do quanto Jeffer, Felipe, Adriana e Barbosa são
pessoas queridas, importantes, honestas e companheiras. A banda agrega todo
tipo de público, pela banda em si, claro, mas parte disso também é sobre a
satisfação em vê-los juntos, justamente porque eles sempre fizeram questão
demais de ver os outros. Só aqui em Goiânia já vieram uma centena de vezes.
Brasília e entorno, nem se fala. A tour na Europa é a cereja do bolo, conquista
mais que importante e merecida, desenrolada na raça e persistência de quem
abraça o subterrâneo com todas as forças desse mundo. Inspirador mesmo. Escrevi
meu primeiro zine por causa do Felipe CDC. Reafirmei minha fixação por tocar
bateria depois de ver a banda em ação pela primeira vez, no extinto terra do
Nunca, lá em sei lá, 2004 ou 2005. Isso sem contar as pessoalidades, o abraço
caloroso e a satisfação que os quatro exalam. Pessoas incríveis, banda
incrível. Vida longa ao Terror Revolucionário!
Show terminado, sensação de alívio e
prazer no rostos dos presentes. Dou uma volta pra despedir do pessoal e compro
uma camiseta da banda. A noite cai e o frio vem junto. Entramos no carro,
trilha sonora branda pra uma volta de mais conversa com André e quando me dou
conta já estou em casa. Mais uma noite que acaba e mais uma etapa dessa
reafirmação constante: agregar em função do som é a coisa mais legal da minha
vida.
Fotos: Rockeragem
Vídeos: Shows que eu fui






cara! que bacana!
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