quinta-feira, 13 de julho de 2017

Entrevista: Marcelo/O Cúmplice (SP)

01. Além da popularização dos meios de comunicação e das facilidades de acesso à arte num geral, quais diferenças (o que era melhor e o que melhorou ou não) você repara entre a geração – estritamente underground, a respeito de ter um selo, uma banda, organizar shows, etc - do meio/fim dos anos 90 pra cá?

Acredito que as transformações tecnológicas mudaram completamente as formas de fazer e atuar dentro da experiência da música underground. A velocidade que a informação é adquirida, produzida e passada faz com que sejamos cada vez mais ansiosos, e ao mesmo tempo não valorizemos o que conseguimos. De outra forma, as pessoas que vivenciavam essas experiências anos atrás tinham uma outra maneira de agir e interpretar o que era ter “música” em mãos. Falo isso de minha experiência. Adquirir um lp ou cd, as vezes era um périplo, uma aventura. E a gente se agarrava a isso com unhas e dentes, como se fosse um tesouro a ser legado aos nossos filhos. E ainda penso assim, ter uma coleção de discos é como manter uma biblioteca. Lá estão suas referências. Lá estão histórias que embalaram sua vida. Ao alcance da mão, para ser manuseado e consumido. Hoje acho que as pessoas baixam, 2 ou 3 músicas, ouvem até enjoar sem mesmo lembrar o nome do artista ou capa do álbum e depois deletam do celular, ou hd, para ocupar com outras coisas. Sei que é um dilema geracional mesmo. Não aponto como bom ou ruim. Só é diferente da forma como aprendi a adquirir música.
Por outro lado, eu tento ser positivo em ver que muita coisa mudou para melhor. Para uma banda é extremamente mais fácil, na medida do possível de cada um, claro, ter acesso a bons equipamentos, ter técnicos de estúdio que entendam do som. Além disso, o acesso a suas referências mudou. O que antes identificávamos em fanzines xerocados mil vezes e em fotos de encarte de disco, pode ser rapidamente identificado por um vídeo do Youtube, ou escrevendo diretamente para a página da banda. Se antes a nossa base era a infinita rede de correspondências, com toneladas de flyers nos envelopes com carta social, hoje as redes sociais, comunidades virtuais, plataformas de streaming, os e-mail se e grupos de comunicação instantânea aceleraram e facilitaram o acesso para mapear possíveis locais para tocar e estabelecer contatos com pessoas com interesses comuns, que podem ajudar a produzir o que quer que seja, de forma cooperativa. Uma vez alguém me comentou que o Redson e o pessoal do Cólera ficou mais de um ano para armar aquela tour deles dos anos 80. Imagine, em um mundo onde a comunicação era telefone, quanto mais um fax ou telex. Hoje com alguns e-mails, para as pessoas que lidam com booking, em semanas, no máximo alguns meses, pode-se considerar que se tem na mão uma tour fechada e estruturada.
Hoje os selos dispõem de inúmeros formatos para disponibilizarem a música de seus catálogos. Existe a possibilidade de ser um selo que lida com material físico (vinil, cd, fita e outros) ou virtual (aquele que só existe na nuvem) ou todos ao mesmo tempo. Se lembrarmos como era no começo dos anos 90, pelo menos aqui em São Paulo, tínhamos selos que eram vinculados a lojas de discos. Quem produzia, também era o encarregado de escoar a produção por um ponto fixo. No correr dessa mesma década, com o surgimento da mídia gravável, do barateamento do cd e quebra das fábricas de vinil do Brasil, um outro fenômeno aconteceu, inúmeros selos independentes surgiram, ligados a bandas ou pessoas interessadas nessa maneira de fazer. Mesmo assim era custoso lidar com fotolitos, com master em mídia física, intermediação via correio/telefone com os produtores. Isso mudou tanto para os dias de hoje, ficou tão impessoal, que tenho a impressão que estou mandando o material para o limbo, onde ele é processado, e em 30 dias ele vira 3 ou quatro caixas grandes que me esperam na porta de casa.


02. Como (e se é que) você aplica suas vivências de historiador nos projetos que encabeça? E o contrário, acha que (e se sim, como) suas vivências com banda/selo/shows interferem nos seus posicionamentos como historiador?

Antes de fazer a graduação eu já vivia o universo do hardcore-punk/underground alternativo. É algo que ajudou a moldar meu caráter e visão de mundo. Foi o universo que me apresentou pautas que me fizeram refletir e mudar para o que sou hoje, fazendo uma curva sem volta no meu passado. Quando entrei na universidade, e eu já era um pouco mais velho que a média, muitas ideias de política tomaram mais corpo e peso. As leituras foram se aprimorando. O senso crítico fica um pouco mais afiado. Por outro lado, depois de formado bacharel/licenciado, de ter feito especialização, e atualmente no mestrado (mais uma vez), eu vejo que tudo que faço no âmbito de estudo ou de produção acadêmica passa pelo jeito de “fazer” do punk. Eu não costumo esperar muito ou ser tão tímido para tomar certas atitudes. Quando comecei a trabalhar com História Oral, por exemplo, eu mesmo preparava o equipamento de gravação. Revisava os perfis de entrevistados, sem que me indicassem que era isso a ser feito. Quando tenho dificuldade em arrumar algum texto ou alguma tradução de um idioma que eu não domine busco formas, maneiras, apelo a amigos. Algo que percebo que fez a via inversa. Digo, da história para o punk, foi pensar com mais profundidade certos conceitos na realidade vivida. Algumas palavras são muito pesadas quando olho a realidade hoje: tempo, memória, sociedade, cultura, e tantas outras que são a base das ciências sociais. Não consigo mais pensar esses conceitos de forma superficial. Eu tenho uma fome de aprender, que me deixa um pouco culpado, por não ter tempo de ler algumas coisas, como tive no passado. Essas experiências se misturam, o ser humano é um bicho complexo por demais, e eu pessoalmente acho que todas essas coisas se misturam comigo. Não tem um limite que separe o hardcore/punk do historiador e vice-versa, pois esses dois meios me formaram como pessoa. São partes constitutivas de minha individualidade.

03. Acho considerável a regularidade de lançamentos e shows fora de São Paulo d’O Cúmplice, ainda mais pra uma banda autônoma, sem incentivos maiores que os dos próprios integrantes. Depois de tanto feito, por que insistir e quais os planos pra daqui pra frente?

Isso é fruto de uma conversa que tivemos uns anos atrás. Os primeiros anos da banda foram meio turbulentos com mudança de formação, mas depois decidimos fazer a banda funcionar como acreditamos que deve ser. Ensaiando, compondo, tocando em shows (muitas vezes organizados por nós mesmos ou amigos), gravando, lançando, distribuindo e repetindo todo esse ciclo. Cada um contribui com o que pode. Eu escrevo todas as letras, tento organizar os lançamentos, através da Black Embers Records, e com selos parceiros e amigos. Os demais compõem todo instrumental. O Cauê é muito minucioso com a composição. Também ajuda muito na organização de shows. O Luiz, além da bateria, muitas vezes é a linha de frente para nossas tours e shows fora de São Paulo. A Karen e o Alessandro ajudam muito na parte de transporte, com os carros e correrias de equipamento. Cada um contribui de uma forma, dando o melhor de si, e se esmerando no que doa a banda. Nós insistimos, pois somos meio viciados nisso, mesmo. Todos trabalhamos, temos empregos regulares, quase todos estudamos, tocamos em outras bandas, temos nossos relacionamentos. Então é mais uma fatia da vida de cada um. Uma fatia onde se encontram essas cinco pessoas. A química e a amizade vem dando certo a quase duas décadas. 
O plano é terminar de compor nosso primeiro full. Acredito que seria uma forma legal de fechar esse primeiro momento da nossa discografia. Temos participações em coletâneas, um compacto 7” e três splits (Te Voy a Quebrar, Gracias por Nada e Besta). Falta um disco cheio, completo, entende? No momento temos 7 músicas novas, algumas delas já temos tocado ao vivo. A ideia é compor o que falta, tentar gravar esse ano, e continuar tocando, onde for possível.




04. Vocês tocaram em Goiânia e Brasília em 2014 e agora voltam pra mais três shows, incluindo Uberlândia na rota. O que esperar?

Rever os amigos, tocar da melhor maneira possível (o que nem sempre acontece, hehehehe), conversar bastante, distribuir material, ouvir os locais. Conhecer novas bandas também. Por exemplo, na última vez tocamos em Goiânia com o Diversões Eletrônicas e foi demais! É uma forma bem legal de entender como andam as movimentações e bandas nesses locais. Assim, podemos entender as diferenças que nos aproximam e as equidades que nos afastam. O nosso universo subterrâneo é vivo e dinâmico, e temos que buscar sempre conhece-lo melhor, se quisermos continuar produzindo dentro dele. 




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